sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Dia da Aviação


Céu de brigadeiro. O grande quadrimotor voava lentamente, flaps a cinquenta por cento, perdendo altura enquanto circulava em torno de duas pequenas ilhas, perdidas na imensidão azul do Atlântico. O atol das Rocas era uma das referências – um “fixo” de navegação – previstas nos voos de experiência do novo sistema de navegação inercial, em fase de testes de aceitação pela FAB.

O coronel Etraud avançou levemente as manetes de aceleração, e o ronco suave dos motores ficou ligeiramente mais audível. O major Pagani verificou a RPM e o torque dos motores. O Hércules estabilizou-se em uma órbita baixa em torno das duas ilhotas, como uma mariposa atraída pela luz.

O capitão Rabello checou rapidamente cerca de quarenta instrumentos, ajustou alguns controles e, satisfeito, recostou-se na sua poltrona para contemplar o incrível panorama que se descortinava através das grandes e numerosas janelas da espaçosa cabine de voo. Com sua experiência, ele confiava nos pequenos ruídos que se misturavam ao ronco dos motores para alertá-lo sobre qualquer quebra na rotina. O avião falava com ele.

O tenente Barcellos, o mais novo da tripulação, ainda não conhecia os segredos desse diálogo entre o homem e a máquina, mas confiava nos companheiros mais antigos, e também desviou sua atenção para o espetáculo paradisíaco.

No compartimento de carga, os doze sargentos que compunham o grupo de especialistas fizeram uma pausa nas suas atividades de monitoração e teste dos diversos sistemas da aeronave e também se amontoaram junto às vigias redondas de observação. Tinham 15 minutos antes de reassumir seus postos.

Os que viam pela primeira vez esse panorama estavam mudos. Os poucos "antigões" que conheciam o atol e suas histórias terríveis narravam em voz baixa os episódios macabros, colorindo-os com detalhes fantásticos, conforme lhes parecia mais adequado.

- Pois é - explicava-me o sargento Lindolfo, - o navio encheu o reservatório de água com óleo diesel, por engano, e zarpou antes que o faroleiro percebesse o que tinha acontecido. Quando voltou, um mês depois, todos tinham morrido de sede -- o casal e os dois filhos.

- É - complementava Bonfim, um segundo-sargento negro como a noite. - Uma noite ele botou fogo na casa, para chamar a atenção de um navio que passava, mas não conseguiu nada...

- Tá vendo a ilha menor? Chama-se Ilha do Cemitério - dizia Pereira, o instrumentista. Tem mais de trezentos túmulos lá, entre faroleiros, familiares e náufragos!

Entre fatos históricos e lendas, realidade e fantasia, o que mais me impressionou na época - já se vão mais de trinta anos! - foi o contraste entre o aspecto paradisíaco do atol e as histórias macabras a ele associadas. E muito tempo depois tive oportunidade de conferir essas histórias com documentos fidedignos.

Os quinze minutos haviam passado. O comandante acionou a campainha. A tripulação voltou a seus postos.

- Comandante a postos - a voz tranquila do coronel soou no "Public Adress".

- Co-piloto a postos!

- Mecânico a postos!

- Navegador a postos!

- Mestre de carga a postos! Tudo amarrado e seguro!

O coronel avançou as manetes até os torquímetros marcarem 12 mil libras. O ruído dos motores aumentou. O avião ganhou velocidade.

- Recolher flaps!

- Flaps recolhidos!

Ganhando altura lentamente, o quadrimotor fez uma ampla curva à direita e aproou para seu próximo destino - Fernando de Noronha.
 

6 comentários:

  1. Lembranças muito bem narradas que o então tenente Barcellos guardou. Uma ótima forma para se comemorar a data. Bjs.

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  2. Eu me senti ali, ouvindo, vendo e aguardando a chegada. Otimo! Boas lembranças.

    Bjs

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  3. http://paraneura.blogspot.com.br/2015/10/para-quem-tem-saudades.html

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  4. http://paraneura.blogspot.com.br/2015/10/para-quem-tem-saudades.html

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  5. Voltando de Noronha vocês trouxeram um clandestino no trem de pouso do Hércules. Lembra daquele peixe enorme? Foi distribuido para a família inteira. E que delícia.

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  6. Continuo anónima. Não consigo identidade. Desisto. Um beijo meu irmão. Dôra.

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