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| A persistência da memória - Salvador Dali |
O tempo escorre lentamente do relógio, em tiquetaques preguiçosos e vadios. É o velho demônio irritante, tirando do saco de minha vida, já meio murcho, uma moeda a cada tique e atirando-a no saco sem fundo da eternidade a cada taque. E ele faz isso sorrindo, sarcástico, para mim. "Uma de menos... uma de menos... uma de menos..." - vai ele desfiando a ladainha dos segundos que se perdem sem resgate.
Mas hoje, demônio velho, não cairei nesse truque psicológico barato. Não ligarei a TV, não lerei livros ou jornais, não telefonarei para ninguém. Porque sei que ela, a minha amada, está vindo.
Desfia a tua ladainha, velho demônio, desfia-a mais rápido, que os segundos da espera não se contam como aqueles da tristeza. E quando minha amada estiver em meus braços, será minha vez de contar: "uma a mais, uma a mais, uma a mais..."
Pois dela os beijos são vida, e os carinhos são eternidade, e seu amor não cabe neste ridículo universo onde espaço e tempo têm seus limites. Ela me levará nas asas da paixão e me guiará para onde não se contam moedas, onde não há sacos de diferentes tamanhos, onde os demônios contadores se encolhem envergonhados e perecem à míngua de relógios, onde tempo não é dinheiro e dinheiro não é mais que fumaça. E lá escarneceremos de ti, até o fim dos tempos.
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Esse pequeno ensaio foi publicado no Quiosque do Pastel em 17/11/2011, e eu achei que ele merecia uma reedição, em homenagem à primavera que está chegando.Niterói, setembro de 2012
Rodolfo Barcellos
PS: os "blogs" O Livro Imortal e A Biografia do Fogo, do Moisés Poeta, estão completando dois e três anos por esses dias. Parabéns ao amigo. http://olivroimortal.blogspot.com/2010/09/benjamin-franklin.html
http://biografiadofogo.blogspot.com/2009/09/eu-nao-sou-triste-alegria-vive-sempre.html





