terça-feira, 16 de outubro de 2012

O clube (repostagem)

Imagem: Josephine Wall

5- HMHMHMHMHMHMHMHM HMHMHMHMHMHMHMHM
4-  H M H M H M H M H M H M H M H M
3-   H   M   H   M   H   M   H   M
2-     H       M       H       M
1-         H               M
                 VOCÊ 

     Esta é sua árvore genealógica nas últimas cinco gerações, desde os seus tetravós, a não ser que você tenha brotado de uma couve ou seja uma ovelha chamada Dolly.
     São uns 150 anos, contando sua idade. Seus ancestrais somam, nessas gerações:

     1+2+4+8+16= 31 Homens e 31 Mulheres.

     Note que, se qualquer uma dessas 62 pessoas não tivesse tido filhos, você não existiria. Mas qual é a probabilidade de você existir?
     Vamos raciocinar: se seu pai e sua mãe tivessem, cada um, 50% de probabilidade de gerar um filho durante toda a vida, você teria 25% de chance de existir. Das quatro combinações possíveis, somente uma nos brindaria com sua presença neste mundo:

Mãe apta?    Pai apto?    Filho nasce?
   Não          Não            Não
   Não          Sim            Não
   Sim          Não            Não
   Sim          Sim            Sim

     Fica claro que a probabilidade do filho é igual à probabilidade do pai vezes a probabilidade da mãe. Em outras palavras, 50% x 50% , que dá 0,5 x 0,5 = 0,25, ou 25%, ou 0,5 à segunda potência. Resumindo: 1/4. 
     No seu caso, vamos considerar que a aptidão dos seus ancestrais para gerar vários filhos tenha sido de 100%. Êita família bem dotada! Só que para exercer esse dom, cada um deles teve que sobreviver em um mundo onde grassavam guerras e epidemias, e a mortalidade infantil era absurdamente alta. Muitas pessoas não chegavam à idade de procriar, e mesmo entre os que lá chegavam havia quem não quisesse ou não pudesse gerar filhos.
     Mas sejamos generosos e digamos que 99% atingissem essa idade e efetivamente deixassem herdeiros. Então, qual é a chance de que 62 pessoas chegassem a ter pelo menos um filho cada uma? 
     O cálculo é fácil: 0,99 elevado à 62ª. potência... o que dá 0,54, ou 54%. Parece que você escapou por pouco...
     Se retrocedermos só mais uma geração, suas chances diminuem para 28%. Depois, 7,8%, 0,50% - e assim vai. Melhor parar por aqui...
     É claro que esse cálculo aproximado serve para todos nós. Somos todos sobreviventes, escolhidos, ganhadores.

     Bem-vindo ao clube dos premiados. 

     (Por Rodolfo Barcellos - baseado numa passagem do livro "O Mundo de Sofia", de Jostein Gaard).
*   *   *   *   *
     Este texto é uma transcrição revisada do original, de mesmo título, publicado em março de 2010 no "Sete Ramos de Oliveira" e republicado no "Quiosque do Pastel" em dezembro do mesmo ano. Nessa ocasião, o amigo João Esteves comentou:
Oi, Rodolfo. 
Você tece considerações muito interessantes aqui no seu post de estreia. 
Fiquei foi meio 'pulgatrasdorelha' com os números aqui apresentados. É tudo sério? Achei-os meio esquisitos, sei lá, mas acho que isso pode tranquilamente correr por conta da minha sesquipedal ignorância matemática.
A propósito, sempre me intrigou muito uma questão paralela.
Seguinte: eu venho de um casal, e meu pai mais minha mãe também, cada um. Meus quatro avós, meus oito bisavós, meus dezesseis trisavós, meus trinta e dois tetravós, meus sessenta e quatro pentavós, e por aí vai, todos também, cada um veio de um casal, invariavelmente. No entanto, se quanto mais recuo no tempo, mais pessoas encontro que acabaram me produzindo, como é que simultaneamente, quanto mais pro passado eu for, menor população mundial haverá?
Já ouvi algumas explicações 'numéricas' que nunca entendi. Minha matemática é aquela coisa só pro gasto, que não uso pra muita coisa além de contar dinheiro. E meu dinheiro nunca exigiu muita matemática.
Bem vindo ao quiosque.
29 de dezembro de 2010 17:22

     A Lu emendou:
kkkkkkk Oi João, meu amigo como vai?
Como sempre suas considerações (coments) são sempre muito inteligentes, somadas às aquelas sutilezas hilárias tão peculiares em ti.
Bem vindo de volta e vambora que o Quiosque tá a todo vapor e com sangue novo.
Abraços da Lu
29 de dezembro de 2010 19:14

     A Milene disse:
Olha se não é El Brujo que por aqui se encontra também? 
Recebi o convite da Lu, lisonjeadíssima aceitei e bora ver no que dá.
Saiba que muito disso é culpa sua, Senhor Barcellos, que fica a propagar por aí a minha veia de cronista, a qual nem sei se é real.
Nem vou comentar nadinha da postagem, pois fugi às aulas de Biologia. Fugi a um tantão de aulas, a bem da verdade.
Beijos e afagos.
30 de dezembro de 2010 00:37

     Confesso que fiquei embatucado com a questão posta pelo João e, meio na dúvida, alinhavei mal e mal uma "explicação" para respondê-la:
- Lu e João, obrigado pela acolhida generosa a este pasteleiro neófito.
- João, não sou matemático, mas sempre fui fascinado pelos números e seus malabarismos. Malba Tahan, com "O Homem que Calculava", foi meu guru na minha agora longínqua adolescência, e você pode confiar nos cálculos que apresentei na matéria.
- Acontece que, quanto mais recuamos no tempo, mais nos deparamos com casamentos consanguíneos, muitas vezes propositais (os dinásticos, por exemplo), mas geralmente por desconhecimento das pessoas do povo, que não tinham registros genealógicos.
- Isso reduz substancialmente o número de ancestrais mas não afeta o cálculo probabilístico, que se baseia no número de casais.
- Milene, que bom que temos mais um lugar para bobagear... e se me surpreendi ao vê-la desembarcar aqui, é porque não tinha visto você no trem. E não bote a culpa em mim; agora você sabe que o "Certificado de Excelência" do "Sete Ramos" é coisa séria. E a julgar pelos pastéis do "Quiosque", o pasteleiro do "Sete Ramos" vai ter que preparar em breve uma nova fornada do cobiçado diploma...
- E que bons ventos levem a nau "Quiosque" e sua tripulação na travessia do ano que está ali na esquina...
30 de dezembro de 2010 09:14 

     Leonel comentou:
Pô, cara, se com todas essas "peneiras", somos os "privilegiados" 6 bilhões que se acotovelam neste grãozinho de poeira espacial, acho que tem que mudar a subrotina!
Mas, o asteróide vai dar um jeitinho nisto, já-já! O Jair tá torcendo!
30 de dezembro de 2010 20:18

     Passados os efeitos etílicos das festas de fim de ano, o óbvio me atingiu e eu fiz novo comentário à questão posta pelo João:
- Voltei lá de 2011 para esclarecer: os nossos 62 tetravós têm mais do que um só tetraneto. No geral, têm centenas, e às vezes milhares... é por isso que no nosso mundinho tá saindo gente pelo ladrão.
- Deixa eu voltar pro futuro. Esse negócio de viajar no tempo às vezes confunde a gente.
4 de janeiro de 2011 09:17 

sábado, 13 de outubro de 2012

Sete sete-setes, X

     Essas sete sete-setes são do início de julho; mesmo a X.3, que era originalmente uma sextilha feita há mais de um ano como boas vindas à Marcia - minha centésima seguidora - só recebeu a forma atual de setilha através do "enxerto" de um verso extranumerário; por isso mantive sua data original.
Foto: Beatriz Barcellos

X.7- Marilene, 6/7/12
O que era inexpressivo
Ganhou força de expressão
Neste teu poema vivo,
Nesta sublime canção;
E em tua alma sensível
Exprimiu-se o inexprimível
Na voz de teu coração!

X.6- Denise, 5/7/12
Uma Fênix renascida
Um novo ninho requer
Como abrigo e guarida
Para uma nova mulher.
As cinzas, levou o vento;
Na brisa foi-se o lamento
De quem bem sabe o que quer.

X.5- Ma, 5/7/12
O mundo sorri à chuva
Que fecunda o rude chão
Fazendo brotar a uva
E o trigo - o vinho e o pão;
E mistura-se à terra
Formando o barro que encerra
A arte que te sai da mão.

X.4- Marcia, 5/7/12
É no silêncio e no frio
Do inverno que, enterrada,
Brota a semente plantada
Que dará flores no estio.
Assim também a poesia
Germina n'alma vadia,
No silêncio... no vazio.

X.3- Marcia, 10/6/11
Querida amiga Marcinha
Que pousaste nos meus Ramos
Como uma alegre rolinha,
Seguindo-nos já estamos;
Sê bem-vinda, amiga minha,
Hoje tu és a rainha:
Contigo aos cem nós chegamos!

X.2- Graça, 2/7/12
Um sete-sete discreto
Inspirado em tua arte
Recebe valor concreto
Emoldurado destarte;
Honra a tua atitude
Celebrando a negritude;
Meu apoio quero dar-te!

X.1- Milene, 1/7/12
Coisas que são como são,
Imutáveis, rijas, mortas.
Coisas que são como estão,
Ora retas, depois tortas,
São vivas e palpitantes,
São mutáveis, inquietantes,
São você... ora, se são!

Niterói, outubro de 2012
Rodolfo Barcellos

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A última flor


Ao apagar das luzes de 2009 o recém-nascido "Sete Ramos" ensaiava seus primeiros voos - ainda sem rumo certo. E valeu-se de um artigo engavetado há alguns anos nos arcanos empoeirados de um HD que já exalou seu último suspiro.
*   *   *    *    *
Pesquisar na Internet é um "hobby" para mim. O "Google" é meu "site" favorito. De uma dessas pesquisas, em maio de 2006, nasceu o artigo seguinte:

RAMALHETE LATINO

"Última flor do Lácio, inculta e bela" (Olavo Bilac, poeta brasileiro)

O primeiro verso do soneto de Bilac refere-se à própria língua portuguesa. O poeta queixa-se das vicissitudes que enfrenta para dominar as peculiaridades da língua e toma o próprio Camões - no terceto final - como testemunha das dificuldades do idioma. Ele não sabia que as coisas iriam se complicar muito mais...
A última flor do Lácio não é mais a última. Foi polinizada por borboletas que voavam de flor em flor, e produziu frutos e sementes que se espalharam pelo mundo, gerando novas variedades sempre que encontravam solo fértil. Um destes foi a própria terra de Bilac - o Brasil. Aqui, os dialetos dos índios e dos africanos mesclaram-se com o doce acento lusitano e os falares dos imigrantes de todo o mundo para gerar uma nova variedade da flor - que está sendo chamada, nos meandros da Internet, sem a menor cerimônia, de Pt-BR!
Bem, saibam todos quantos isto lerem que o Pt-BR é uma língua viva, assim como as nossas irmãs d' África e doutras paragens. Sendo viva, tem sua identidade própria, que lhe é conferida em grau maior por quem a lê e fala; em grau menor, por quem a escreve (como eu, aqui); e em último grau por quem acha que nela manda ou quer nela por mordaças.
Aqui, no Brasil, temos uma Academia que cuida desses assuntos. Justiça lhe seja feita: a ABL tenta evitar o autoritarismo didático, e procura acompanhar, com cautela e prudência, as modificações populares no falar cotidiano. Tirante tal ou qual tiro torto, os alvos principais de seus ataques são as expressões "da moda", que são como fogo de palha: espalham-se rapidamente, mas não têm conteúdo capaz de garantir-lhes a sobrevivência a longo prazo.
Passeando pela Internet (ou melhor, navegando(*)), notei no "forum" da Wikipedia um interesse inusitado a respeito de siglas e abreviaturas estrangeiras e da maneira correta de traduzi-las (ou representá-las) em português. Alguns exageros - aceitáveis no clima de liberdade indispensável à finalidade do "site" - me causaram espanto. Não me pude conter, e resolvi "botar lenha na fogueira". Aí vão algumas sugestões para abreviaturas "traduzidas":

RADAR: DDDOR - Detecção de Direção e Distância por Ondas de Rádio
LASER: ALEER - Amplificação de Luz por Emissão Estimulada de Radiação
RAM: MAA - Memória de Acesso Aleatório

Para facilitar a pronúncia, poderíamos usar variantes fonéticas como DeDiDOR, ALEmER e MAceA.
Parece ridículo, não? Bem, é mesmo. Mas, saindo do campo minado das siglas e abreviaturas, não estamos livres de sustos no terreno dos termos de origem estrangeira.
Algumas "traduções" são simplesmente adaptações fonéticas. Para aproveitar o embalo, vejamos algumas dessas que poderiam ser "melhor" traduzidas por "acadêmicos" empedernidos (acredite, eles bem que tentaram):

Football: Balípodo ou Ludopédio
Chauffeur: Cinesíforo
Basketball: Cestobola

Mais ridículo ainda? Aqui, no Brasil, sim. Mas "futebol", "chofer" e "basquetebol" já passaram da fase de "adaptação fonética" ou de "estrangeirismo" e se incorporaram ao nosso vocabulário, simplesmente por trazerem um conteúdo rico em significado para o nosso povo, que adotou esses termos rapidamente. Deixo ao critério do leitor que teve a paciência de me acompanhar até aqui a "tradução" dos seguintes termos e expressões:

Windsurf - Rollerball - Skate - Bungee Jump - Off Shore - Bodyboard - Quark -...

Note que os termos que se referem a atividades esportivas são maioria nas listas anteriores. São, na verdade, grãos de pólen trazidos de outras flores por abelhas e borboletas operosas e que poderão (ou não) provocar mutações genéticas em nosso idioma.
Alguns acreditarão que esse processo pode provocar defeitos congênitos ou adquiridos ao nosso querido Pt-BR. Ledo engano! Nosso falar é forte e saudável, e saberá se defender com seus próprios anticorpos, preservando as mudanças que lhe trazem riqueza e rejeitando todas as demais. Mas esse processo demora um pouco, e expressões novas e estranhas sempre estarão circulando na mídia(**) e na boca do povo, enquanto são lentamente modificadas e absorvidas ou agonizam e perecem por falta de exercício. Já vimos como pululam neologismos esportivos em nossa terra.
Caros companheiros de fala e de idioma, descendentes e herdeiros da Flor do Lácio: deixem que o fruto gerado por essa flor espalhe suas sementes e se multiplique em dialetos e acentos que retratem fielmente o modo de ser e de falar das gentes que os usam. Cuidem para que cada modo novo de falar e escrever seja uma pequena joia acrescentada ao seu patrimônio cultural. E assim, a Flor do Lácio nunca será a última, mas sim a mãe de muitas outras flores.

NOTAS
(*) Navegando: gosto da expressão "navegar pela Internet". Ela transfere para uma atividade moderna e absorvente todo o significado que lhe foi conferido pelos grandes navegantes portugueses. Também o neologismo "surfar na Internet" carrega uma expressividade toda sua, em que o verbo e sua regência despertam a ideia de uma atividade mais leve, esportiva e voltada para o lazer.
(**) Mídia: pessoalmente, detesto esse termo, mas parece - ao menos por agora - que esse grão de pólen vai vingar. De fato, a língua se enriquece, pois não temos outra palavra que, com a mesma concisão, contenha todo o significado dessa.


REFORMA ORTOGRÁFICA
Gosto e não gosto. Valeu a queda do trema, pelo menos. Aqueles dois pontinhos não serviam pra nada, mesmo.
Mas pretendo continuar grafando minhas idéias e medéias como sempre. Quanto ao resto, vamos dar tempo ao tempo...
*   *   *   *   *
Nota: quanto às medéias e idéias, mudei de ideia de lá pra cá... não quero comprar briga com os doutos acadêmicos. Mas ainda acho que em certos casos poder-se-ia admitir uma grafia alternativa, ressalvada a preferência pela forma "oficial".

"ENTRE MIM E TI, MEDEIA, MEDEIA, PELO QUE VEJO, UMA GRANDE DISTÂNCIA".

Mas na questão do hífen, ainda não engoli sua ausência (por exceção) no paraquedas (por analogia com paraquedismo) e no malmequer (e como fica a analogia com o bem-me-quer?)
Xapralá... como não sou profissional da área, já sei que vou ser massacrado por alguns, mesmo...

sábado, 6 de outubro de 2012

Trovas 161-170

     Mais trovas-comentários. A 163 é, na verdade, uma quadrinha em metro múltiplo - 9:10:11:10 - cujo fluxo é sustentado pelo ritmo da leitura. Estas são de maio. E até o blog do Xipan me inspirou uns "versejamentos"...
Imagem: Blog da Mellíss
170- Sissym, 14/5/12
Esta trova de improviso
Me brotou do coração;
Não nasceu do meu juízo,
Mas da minha intuição.

169- Xipan, 12/5/12
Pelos dois anin de brogue
Ocê merece essa trova;
Mas na breja que ocê prova
Óia lá... Num si afogue!

168- Ma, 12/5/12
Rosas que enfeitam um jarro
Pelas mãos da jardineira
Rosas que brotam do barro
Ao toque de Ma Ferreira!

167- Carla, 10/5/12
Cada instante é um passo
E a vida é uma dança
Que se dança no compasso
E no espaço da esperança.

166- Zilani, 10/5/12 (Dia das Mães)
Mães não se vão, na verdade;
Elas transformam-se, um dia,
De presença em saudade,
De ternura em poesia...

165- Isa, 10/5/12
Esse doce de pitanga
Já em seu poema avisa:
Não cabe tristeza ou zanga
Nas quintas-feiras da Isa...

164- Marcia, 10/5/12
Outono. Destino ou sorte,
Completa seu ciclo a flor;
Fruto ou vaso, vida ou morte,
Sempre é símbolo do amor.

163- Cecília, 7/5/12
Quem- és- tu,- que- tais- pa-la-vras- ou(sas),
Pro-fun-das,- con-tun-den-tes,- men-sa-gei(ras)?
És- poe-ti-sa.- E- em- ri-mas- sor-ra-tei(ras)
Tu-a- lou-cu-ra- na- ra-zão- re-pou(sas).

162- Isa, 7/5/12
Romantismo no trovão,
Se a poetisa encontrar,
Isso é mais uma razão
Para ela poetizar...

161- Carla, 7/5/12
Tuas asas te levaram
Por serem asas de gentes
Por céus muito diferentes
Dos que asas de anjo buscaram.

Niterói, outubro de 2012
Rodolfo Barcellos

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Errata




E tanto amor foi pelas noites derramado
Que passamos juntos sem nem as ver passar
E cada beijo que entre nós dois foi trocado
Já foi perdido antes mesmo de se achar

E o tempo foi passando, e nós não percebemos
E na rotina morna apagou-se a paixão
Onde será que nós os dois nos esquecemos
De cultivá-la fundo em nosso coração?

Na página de fecho desse velho amor
Que a vida sufocou sem dó nem piedade
Lê-se hoje a errata triste, em tom frio:

Onde estiver "carícia" troque-se por "dor"
Onde se escreve "noites" leia-se "saudade"
Onde se lê "beijos" entenda-se "vazio"...

Niterói, outubro de 2012
Rodolfo Barcellos

sábado, 29 de setembro de 2012

Para Milene



Alagoana,
Sinto saudades de ti.
Sabes? Deixei meus dedos
Dançarem sobre o teclado
Para escrever o recado
Que eu quero deixar aqui.

Alagoana,
Sinto saudades de ti.
Sabes? O teu perfume
Chegou-me através do vento
Que, caprichoso e atento,
Trouxe notícias daí.

Confirmou que tu me amas, alagoana,
E eu que nunca confiei
Nos devaneios da brisa
Desta vez acreditei.

Ama-se, e oh! alagoana,
Ah, Maceió!
Como se ama
Em Maceió!

Sabes, alagoana?
A primavera vem por ti.
Há sete dias passados,
As luzes furta-cores do equinócio
Vieram dançar comigo, ao por do Sol.
E um reflexo rosado
Num tom radioso e dourado
Segredou-me: É por ela que viemos.

Confirmou que tu me amas, alagoana,
E eu que nunca confiei
Nos reflexos das luzes
Desta vez acreditei.

Eu não sabia, alagoana, que meus sonhos,
Nas horas em que estou acordado,
Dormem no umbral de tua porta,
Na comunheira do teu teto,
Na comunhão das rolinhas,
Lá mesmo onde dormem os teus.

E lá, os nossos sonhos sonham juntos
Em prosas e poemas remendados
Com cobras floridas, que voam sem ter asas,
E tiram fotos do Cristo Redentor.

Confirmou que tu me amas, essa cobra,
E eu que nunca confiei
Na malícia das serpentes
Desta vez acreditei.

Por ti, alagoana, as floradas cantam e o céu se enfeita;
Por ti a terra se veste de campos,
Os campos se vestem de lírios
E os lírios se vestem de Deus.

E um serafim trombeteiro, alagoana,
Mulato de  olhos verdes,
Com rosas na carapinha,
Soprou-me forte a trombeta
Dizendo: Por ela eu vim.

Confirmou que tu me amas, esse arauto,
E eu que nunca confiei
Nas profecias dos anjos
Desta vez acreditei.

Viste hoje a Lua? Ela vestiu-se em tons de prata
E fez-se toucar de estrelas
Num luar de serenata
E disse-me que era por ti.

Confirmou que tu me amas, alagoana,
E eu que nunca confiei
Nas confidências da Lua
Desta vez acreditei.

Sinto saudades de ti, alagoana,
Sinto saudades de ti.
Mandei-te igual resposta
Na brisa, nas luzes, na cobra,
No serafim e na Lua,
Em feitio de oração;
Porém só confies nela
Se for idêntica àquela 
Que mora em teu coração.
A Lua passou em Aquário, pronta para a festa,
e deixou um recado antes de ir desfilar em Peixes...
(Foto dia 28 às 19 horas)

     Parabéns, Mi, Pétala Rosadinha, Mi_nina-ternura, Bruxinha, Mimosa, Lagarta Listrada, Milóka, Galeguinha, Miminha...
     Feliz aniversário, Milene Lima! 
     Feliz aniversário, amada nossa!
     Feliz aniversário, querida minha!

Niterói, 29 de setembro de 2012 - aniversário da Milene
Rodolfo Barcellos

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Noves fora


     Pois é... zapeando desanimadamente os canais abertos, nesta era de TV a cabo ou via satélite, eis que me deparo com uma propaganda de supermercado, oferecendo ovos a R$ 2,45 a dúzia. Levei um susto.
     Você, caro leitor, estará nesse momento desconfiando da minha sanidade mental. Com razão, eu diria. Onde já se viu um preço sem o algarismo 9?
     Pisquei os olhos rapidamente; mas o 2,45 não quis se transformar em 2,49 - ou 2,39. Espantoso!
     Ora, espera-se que todos nós saibamos que o mecanismo de formação dos preços é uma ciência exata, na qual o algarismo 9 tem papel de destaque. Devíamos saber que o alegado "efeito psicológico" é um argumento ridículo usado pelos eternos insatisfeitos, buscadores de tenebrosas conspirações contra o sofrido bolso do trabalhador. Se fosse válido, a circulação dos cobres de R$ 0,01 seria enorme. Afinal de contas, o consumidor brasileiro é (é?) um cidadão esclarecido, cioso de seus direitos e não se deixaria enganar por uma simples aparência de preço baixo - ainda mais quando sabe que não vai obter com facilidade o troco que lhe é devido. Pasmem: um país com oitenta milhões de consumidores ativos seria prejudicado em R$ 2.400.000,00 por dia, se cada um deixasse de receber seu troco de R$ 0,01 - isso se só fizesse três compras diariamente. Para onde iria essa dinheirama toda?
     Acho que somos idiotas, mesmo...
     Bem, vamos descontar o fato de que os pagamentos em cartão (juros em torno de 9,99%) minimizam essa roubalheira explícita. Permanece, porém, a roubalheira implícita - e maior - patrocinada pelos adoradores do algarismo 9.
     Mas não é só na formação de preços que o 9 tem presença garantida. As percentagens são outra seara em que ele reina absoluto. E isso não se limita às taxas de juros.
     "Elimina 99,9% dos germes!" - proclama orgulhosamente a propaganda de um conhecido sabonete. O que significa a dizimação quase completa da primeira linha de defesa do nosso organismo - a flora bacteriana epidérmica.
     Produtos para higiene oral prometem destruir com a mesma eficiência nossa flora bucal. Li em algum lugar que, num beijo de língua, duas bocas sadias trocam entre si umas oitocentas bactérias (ou seriam 799?) - talvez esteja aí o "sabor do pecado"...
     Bem, não vou cansar meus 14,99 leitores (sim, alguns de vocês são fracionários) com esse assunto ocioso. Mas que saudade do tempo em que uma dúzia de ovos custava R$ 0,99... ou o sabonete Lux era o preferido de 9 entre 10 estrelas de cinema.
     É... noves fora, zero. E nem um tostãozinho de troco. Acho que vou mudar o nome deste meu cantinho para "Nove Ramos de Oliveira", para atrair mais seguidores...
*  *  *  *  *
     Mas nem sempre o nove é submisso às forças do Mal. Dentro de quatro dias, estaremos celebrando o aniversário de uma querida amiga, no qual os noves são sempre bem-vindos. E enquanto vou embrulhando meu presente deste ano, para juntá-lo aos dos demais amigos, relembro aqui a conta que fiz há um ano atrás:


MAGIA

Já te fiz uns versos mancos,
Outros pouco mais sutis;
Já te mandei versos brancos,
Já te dei rimas febris.
Sou hoje antúrio-poeta,
Tu és pétalas rajadas;
Presto homenagem discreta
À tua alma inquieta,
Nestas coplas mal rimadas.

A Primavera completa
Sete casas já de Libra,
Quando a alma de um esteta
Em tua homenagem vibra;
Foi-se um ano, vagabundo,
E tu do tempo zombaste.
Teu poder hoje, no mundo,
É mais amplo e mais profundo
Sobre todos os que amaste.

Recordas quando tu me perguntaste
Do simbolismo oculto em teus dias,
Em tantos noves que do fado herdaste?
Pois sem cuidar de vãs filosofias
Eu coloquei teus noves na Balança
(Porque és de Libra, querida criança)
E consultei as artes das magias.

E se não crês em bruxedos
Pedirei que tu comproves,
Perante toda essa gente,
Aritmeticamente,
Sem truques e sem segredos,
Tudo contado nos dedos,
Tirando a Prova dos Noves:

Tu nasceste às dezenove
Horas, dia vinte e nove
Deste nono mês, do ano
De um, nove, meia, nove
(Consta em tua certidão).
Pus tudo no caldeirão,
Cozinhei por uma hora,
Até levantar fervura;
E depois dos noves-fora
Cheguei a uma conclusão
Singela, porém segura:
O resultado foi UM!
E no Livro do Feitiço,
Onde não falta nenhum,
Sem sobressalto algum
Encontrei apenas isso:

"A solução aqui está:
Tu és única, querida!
Outra igual a ti não há;
És a flor estremecida,
És una, maravilhosa,
És a pétala da Rosa,
És o símbolo da vida!"

E se isso não bastasse,
Existe a Prova Real:
Houve alguém que não te amasse
Neste mundo virtual?
É claro que não, amada!
Todos estão a teus pés;
Por todos és adorada,
Benquista, idolatrada,
Só por seres tu quem és!

E as estrelas de Aquário
Ou de qualquer outra origem,
Capricórnio, Sagitário,
De Câncer, Áries, Leão,
De Peixes, Gêmeos e Virgem,
De Touro, de Escorpião,
Cantam em coro, contentes,
Nestes versos eloquentes
Em honra a Libra, a canção:

"Salve a estrela mais bela
Que no céu profundo brilha!
A Rosa dos Ventos é ela,
Norte, Sul, Leste ou Oeste,
É sertaneja do Agreste,
Das Alagoas é filha!
Linda estrela radiosa,
Seu nome próprio é Milene,
Seu oculto nome é Rosa;
É a Urna mais luminosa,
É a Rainha mais perene,
É a Pedra mais preciosa,
É a Mulher mais formosa,
É a Luz da própria Selene!"

Esta rima é dedicada
Àquela que as paixões move,
À Deusa mais preferida,
À Musa mais desejada:
És, em inglês, MY BELOVED!
Em espanhol, MI QUERIDA!
Em português, MI AMADA!

Parabéns, Mi.
(setembro de 2011)

*  *  *  *  *
Niterói, setembro de 2012
Rodolfo Barcellos