(Inspirado num texto de Si Fernandes)
Eu ando desencantado
Com esse saco sem fundo
Que se chama dia-a-dia
Subversor do meu mundo
Devorador de energia
Ladrão de horas e sonhos
Gatuno de horas de sono,
Que não pausa um só segundo
No carcomer-me a alma
No mergulhar-me na lida,
No sonegar-me a calma,
No sepultar-me em vida;
Nesta infindável labuta
Nesta ingente disputa
Nesta malparada luta
Batendo com força bruta
Mas busco forças ainda
Para vencer meu calvário
E encontro-as num Relicário
Como uma joia linda
Encontro-as no teu sorriso,
No teu olhar indeciso
Entre fitar-me e esconder-se;
Na tua face graciosa,
No teu perfume de rosa;
E meu corpo se levanta
Meu cansaço se evola
Minha alma exsurge e canta
Retorna minha alegria
Meu querer se agiganta
E eu derroto o dia-a-dia.
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
sábado, 3 de outubro de 2015
Há quatro anos...
Outubro de 2011
Chuva de inverno
Está frio, e chove. Embrulho-me no meu puído manto de
esperança e abrigo-me sob o guarda-chuva rasgado de um otimismo falso. Mas o
vento cortante da tristeza insiste teimosamente em trazer-me as gotas grossas e
geladas da solidão, enquanto a espessa neblina cinzenta da saudade, mal
iluminada pelo solitário lampião das recordações, paira como uma mortalha sobre
a rua escura e vazia que é minh'alma.
Incomoda, essa luz espectral, amarelenta e morta do velho
lampião. Parece sólida, como se fosse tinta, pintando cada gota de chuva com cores
doentias...
O tempo gruda-se em meus dedos, como uma massa amorfa, feita
de momentos desconexos. Vislumbro ao longe, no limiar da visão, um fantasma
silencioso e meditativo. É teu vulto, talvez, perdido no infinito espaço vazio
que existe entre duas camadas de eternidade.
Quero seguir-te. Quero alcançar-te. Mas não posso. E choro a
minha renúncia em lágrimas ausentes e vazias. E percebo, enfim, que também eu
sou um espectro extraviado, vagando em um mundo que não é o meu.
Choro. E sobre mim continua chovendo esta tristeza... esta
solidão...
terça-feira, 29 de setembro de 2015
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Loucura
O tempo que nunca existiu não deixou saudades. Os sonhos nasceram mortos e foram enterrados no sopé da colina azul. O vento aqui não sopra. Nuvens imóveis escondem um sol negro, e os segundos estão esculpidos na face cinzenta e fria da eternidade.
O crepúsculo não chegará. Não há flores ou frutos. Não há ódio, pois não há amor. Não há tristeza, pois não há alegria. Não há morte... não há vida. E nos mares sombrios desse tempo inexistente vagueia sem rumo a nau do esquecimento, sobrecarregada de pesados nadas. Naufrágio eterno de um espectro que se perdeu de si mesmo.
Os olhos cegos do timoneiro desmemoriado estão abertos e fixos num horizonte vazio. Em sua boca mora o sussurro rouco de uma canção sem palavras, que ecoa surdamente no cavername dos porões inundados.
A bússola gira loucamente, em busca de um Norte que não existe. Pendem das vergas farrapos cansados, retalhos imóveis sob o peso do silêncio. E o tempo está congelado em ondas perpétuas de escuridão.
Loucura.
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
Ego inVerso
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Eu sempre me achei
muito seguro. Para mim, a Rê e seus colegas psicólogos estariam desempregados
se todos fossem como eu.
Ledo engano. Nesses
últimos dias, mergulhado na tristeza da perda de Maria Helena, ela, sem que eu
percebesse, me analisou, fez seu diagnóstico e me prescreveu a melhor terapia:
escrever. E soube induzir-me ao tratamento: mandou-me em comentário, há alguns
dias, um soneto do Mário Quintana que já se havia sumido de minha lembrança:
Ah! os Relógios!
Amigos, não consultem os relógios
Quando um dia eu me for de vossas vidas,
Em seus fúteis problemas tão perdidas
Que até parecem mais uns necrológios...
Porque o tempo é uma invenção da morte:
Não o conhece a vida - a verdadeira -Em que basta um momento de poesia
Para nos dar a eternidade inteira.
Inteira, sim, porque essa vida eterna
Somente por si mesma é dividida:Não cabe, a cada qual, uma porção.
E os Anjos entreolham-se espantados
Quando alguém - ao voltar a si da vida -
Acaso lhes indaga que horas são...
Pois não é que o
bendito sonetinho ficou me azucrinando as ideias? Foi de propósito, né, dona
Rê?
Bem, tenho uma
superabundância de tempo - que, conforme alerta Mark Twain, não é
dinheiro - e resolvi exorcizar o soneto tomando-o como mote e compondo
uma glosa, em tercetos:
Glosa
Não quero constar de Martirológios;
E se a hora chegar das despedidas,Amigos, não consultem os relógios.
Pois horas eu vivi tão bem vividas
Que as cantarei em salmos eloquentesQuando um dia eu me for de vossas vidas.
Em frações de minutos repartidas
Essas horas não foram, por contentes,Em seus fúteis problemas tão perdidas.
E se querem fazer-me apológios
Não mos façam como os da negra sorte,Que até parecem mais uns necrológios...
Sejam mais como beijos de consorte
E não como areia de ampulheta,Porque o tempo é uma invenção da morte.
A natureza, à sua maneira
Do tempo desconhece esta faceta;Não o conhece a vida - a verdadeira.
Para tornar tristeza em alegria
Eventos há - a alma é parceira -Em que basta um momento de poesia.
Não queiras tu tapar Sol com peneira,
Pois basta de um segundo uma fatiaPara nos dar a eternidade inteira.
Inteira como o é uma caverna
Onde há túneis infindos sem saída;Inteira, sim, porque essa vida eterna
Em divisões nunca será partida;
Toda fração é una e sempiterna,Somente por si mesma é dividida.
Assim inteira é da glória a ação:
Na derrota ou vitória aos soldadosNão cabe, a cada qual, uma porção.
Heróis e mártires serão amados
Eternamente, sem qualquer senão;E os Anjos entreolham-se espantados,
Buscando tontos resposta pedida,
E ficam sempre em grande confusãoQuando alguém - ao voltar a si da vida,
Do Paraíso a alma no portão,
Do fútil que é o tempo esquecidaAcaso lhes indaga que horas são...
domingo, 6 de setembro de 2015
Minhs Pátria
Minha Pátria
Minha Pátria não é o maior rio do mundo.
Não é o pulmão do Planeta.
Não é um país-continente.
Minha Pátria é gente.
Minha Pátria não é guerra - são guerreiros.
É Amor, é Dor, é Vida,
É o dedo na ferida,
O protesto, a indignação.
Minha Pátria são amigos,
São irmãos, filhos e netos.
São os sonhos realizados,
São aqueles não sonhados
(Não só meus - os teus também).
Minha Pátria está nas ruas,
Nas oficinas, nas casas,
Nos balcões de atendimento,
Nos hospitais, nos quartéis,
Nos estádios, nos teatros,
Nas praças e nas esquinas,
Nos mercados, nas vitrinas,
Nos esportes populares,
Nos eventos culturais;
Minha Pátria está nos jazigos,
Nas escolas, nos abrigos,
Nas filas dos bancos
Nos trens de subúrbio,
Nas balas perdidas,
Nos bondes sem freios.
E neste Dia da Pátria
Ela está principalmente
Naquele grupo da frente
De velhos e anciões
Que abre o desfile imponente
Para tanques e aviões
(E a cada ano que passa
Diminui constantemente).
Minha Pátria sou eu.
És tu. Somos nós.
terça-feira, 23 de junho de 2015
Adivinha
Adivinha o que qui é
Em cada cova treis grão
Prantado no São José
Pra coiê no São João
Sete espiga em cada pé
Bem cozido no fogão
Acompanha capilé
E uns trago de quentão
Correndo de buscapé
No estouro dos rojão
A quadrilha vai no pé
A sanfona vai na mão
No arraiá de nhô Zé
Num pode soltá balão...
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