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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Confiteor

   Cheguei de orelha murcha, ressabiado. Ele, como sempre, já sabia de tudo; e como sempre, fingiu que não sabia de nada. Ficou só me olhando, em silêncio, como quem tem todo o tempo do mundo - coisa que tem, mesmo...
   Finalmente, criei coragem:
   - Fiz besteira grossa...
   Ele permaneceu em silêncio.
   - Foi um comentário que fiz, no "blog" de uma amiga... mas você já sabe de tudo, não é?
   - É... e sei também que você precisa desabafar, para aliviar esse peso que está sentindo. O nome disso é "remorso".
   Contei-lhe tudo, tintim por tintim. Ao terminar, falei:
   - Não sei o que deu em mim... você sabe que eu não sou disso.
   - Você está passando por uma fase difícil. Perdeu recentemente a sua esposa, e na véspera do acontecido seu filho havia viajado em busca de uma vida que é importante para ele, mas que o levará por lugares distantes, onde você nem sempre poderá acompanhá-lo. Seus dois outros filhos já enveredaram por caminhos parecidos, e você está se sentindo solitário.
   Em nossos muitos bate-papos, não me lembro de outro discurso tão longo, por parte dele. E ele continuou, voltando à sua tática de desentendido:
   - Você não testemunhou recentemente o assédio de um indivíduo mal-intencionado ao "blog" de uma outra amiga?
   - É...
   - Não ajudou-a a livrar-se desse assédio?
   - Foi... com o auxílio de um amigo comum...
   - Não tem visto tantos abusos que acontecem na Internet?
   - Sempre.
   - E com essa mania de fuçar os cantinhos dos amigos você não tem conseguido surpreendê-los de maneira agradável?
   - Sim, mas não devia ter fuçado nesse - não sem pedir licença.
   - Foi aí que o inimigo atacou. Ele é insidioso, paciente e traiçoeiro, e não dorme nunca. O que é que você pensou quando viu  os textos?
   - Pensei: "Esta menina está se expondo muito".
   - Pré-julgamento. Já baixou a guarda nessa. E depois?
   - Depois... pensei "Acho que consigo fazê-la tomar mais cuidado."
   - Arrogância. Golpe certeiro do inimigo. E?...
   - E me veio à cabeça que um bom susto serviria de aviso...
   - E assim você se expôs ao golpe fatal. Ele derrubou você usando seu sentimento de solidão, seu instinto de proteção e suas lembranças de interatividade agradável com seus amigos. Já pediu desculpas?
   - Já...
   - E a "menina" já te desculpou?
   Tive que rir com o acento irônico que ele pôs em "menina"...
   - Já, sim...
   - Então você já cumpriu os dois primeiros passos pra se livrar do remorso: pedir perdão e recebê-lo.
   - E há um terceiro?
   - É este desabafo. Como está se sentindo?
   Perscrutei meu coração:
   - Bem mais leve - admiti. Escuta, posso publicar esse nosso papo no "Sete Ramos?"
   - Aprendeu, hein? - brincou ele. - Pode, sim. Mais alguma coisa?
   Fiquei com vontade de questioná-lo sobre as tragédias provocadas pela chuvas, mas lembrei-me do último bate-papo.
   - Só pra agradecer aquele anjo da guarda que você mandou pra me avisar... e já vou indo postar.
   - Vai comigo...