Cheguei de orelha murcha, ressabiado. Ele, como sempre, já sabia de tudo; e como sempre, fingiu que não sabia de nada. Ficou só me olhando, em silêncio, como quem tem todo o tempo do mundo - coisa que tem, mesmo...
Finalmente, criei coragem:
- Fiz besteira grossa...
Ele permaneceu em silêncio.
- Foi um comentário que fiz, no "blog" de uma amiga... mas você já sabe de tudo, não é?
- É... e sei também que você precisa desabafar, para aliviar esse peso que está sentindo. O nome disso é "remorso".
Contei-lhe tudo, tintim por tintim. Ao terminar, falei:
- Não sei o que deu em mim... você sabe que eu não sou disso.
- Você está passando por uma fase difícil. Perdeu recentemente a sua esposa, e na véspera do acontecido seu filho havia viajado em busca de uma vida que é importante para ele, mas que o levará por lugares distantes, onde você nem sempre poderá acompanhá-lo. Seus dois outros filhos já enveredaram por caminhos parecidos, e você está se sentindo solitário.
Em nossos muitos bate-papos, não me lembro de outro discurso tão longo, por parte dele. E ele continuou, voltando à sua tática de desentendido:
- Você não testemunhou recentemente o assédio de um indivíduo mal-intencionado ao "blog" de uma outra amiga?
- É...
- Não ajudou-a a livrar-se desse assédio?
- Foi... com o auxílio de um amigo comum...
- Não tem visto tantos abusos que acontecem na Internet?
- Sempre.
- E com essa mania de fuçar os cantinhos dos amigos você não tem conseguido surpreendê-los de maneira agradável?
- Sim, mas não devia ter fuçado nesse - não sem pedir licença.
- Foi aí que o inimigo atacou. Ele é insidioso, paciente e traiçoeiro, e não dorme nunca. O que é que você pensou quando viu os textos?
- Pensei: "Esta menina está se expondo muito".
- Pré-julgamento. Já baixou a guarda nessa. E depois?
- Depois... pensei "Acho que consigo fazê-la tomar mais cuidado."
- Arrogância. Golpe certeiro do inimigo. E?...
- E me veio à cabeça que um bom susto serviria de aviso...
- E assim você se expôs ao golpe fatal. Ele derrubou você usando seu sentimento de solidão, seu instinto de proteção e suas lembranças de interatividade agradável com seus amigos. Já pediu desculpas?
- Já...
- E a "menina" já te desculpou?
Tive que rir com o acento irônico que ele pôs em "menina"...
- Já, sim...
- Então você já cumpriu os dois primeiros passos pra se livrar do remorso: pedir perdão e recebê-lo.
- E há um terceiro?
- É este desabafo. Como está se sentindo?
Perscrutei meu coração:
- Bem mais leve - admiti. Escuta, posso publicar esse nosso papo no "Sete Ramos?"
- Aprendeu, hein? - brincou ele. - Pode, sim. Mais alguma coisa?
Fiquei com vontade de questioná-lo sobre as tragédias provocadas pela chuvas, mas lembrei-me do último bate-papo.
- Só pra agradecer aquele anjo da guarda que você mandou pra me avisar... e já vou indo postar.
- Vai comigo...