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| A fama do "Beagle" rendeu-lhe esta moeda comemorativa de uma coroa |
Em fevereiro, ganhei dos meus filhos e netos o presente de aniversário que mais aprecio: livros. E embora eu seja um devorador de textos, um deles está me dando trabalho, pela sua densidade e riqueza de detalhes. É "A Causa Sagrada de Darwin", de Adrian Desmond e James Moore, da Record, em tradução da Dinah Azevedo. Em suas 668 páginas, descreve como a luta entre escravagistas e abolicionistas influenciou "A Origem das Espécies", e deveria ser um banquete para cinco ou seis semanas, mas nem na metade eu cheguei ainda...
E tive bons motivos para essa demora. Vejam um trecho:Feitores coabitando com escravas e vendendo seus filhos de pele clara, senhores brancos estuprando escravas (e amantes brancas enforcando as mulheres por "permitirem isso"); as elegantes filhas ilegítimas do dono de escravos sendo vendidas para a prostituição até a morte; essas eram as histórias que os viajantes britânicos guardavam na manga para provar que "a licenciosidade e a tirania se uniram".
Duas páginas depois:
"Olhe primeiro para a mulher caucasiana com sua pele cor-de-rosa e lírios, seus cabelos sedosos, suas formas venusianas e seus traços bem cinzelados - e depois para a prostituta africana, com sua pele negra e de cheiro forte, seu cabelo pixaim e seus traços animalescos -, então compare suas qualidades intelectuais e morais e toda a sua estrutura anatômica... e diga se elas não diferem tanto uma da outra quanto o cisne e o ganso, o cavalo e o asno... (artigo "O mulato - um híbrido", do Dr. Josiah Nott, 1843)."
Nos anúncios classificados dos jornais da época, senhores de escravos fugidos ofereciam recompensas, descrevendo os "malfeitores" (pág. 331):
"Fugiram uma mulher negra e duas crianças. Alguns dias antes da fuga, eu a queimei com um ferro quente, no lado esquerdo do rosto. Tentei fazer a letra M."
"Fugiu meu homem Fonte. Tem furos nas orelhas, uma cicatriz no lado esquerdo da testa, levou tiros nas partes de trás das pernas e as costas estão marcadas pelo chicote."
Escravatura, racismo e preconceito são temas recorrentes na história da humanidade. São conceitos distintos, mas que se interpenetram de maneira perversa, fertilizando-se e potencializando o mal inerente a cada um. Nas Américas, em geral, e particularmente no Brasil, o escravagismo foi particularmente virulento e só foi "oficialmente" extinto sob a pressão crescente do Reino Unido (encabeçado pela Inglaterra), que - após emancipar seus escravos (1834) - sofria perdas comerciais com a "concorrência desleal" da mão-de-obra barata dos países escravagistas. Darwin esteve no Brasil na década de 1830, a bordo do famoso "HMS Beagle", e aqui teve o primeiro contato direto com os aspectos mais sombrios do tráfico negreiro, o que reforçou sua repulsa às teorias de origens independentes das "raças" - de homens ou animais.
Os defensores do escravagismo argumentavam, entre outras coisas, que "a raça negra é uma raça inferior e destinada por Deus a servir à raça branca"!
Bem, o significado de raça pode ser aplicado à espécie humana? Sim... se nos ativermos apenas à definição do fenótipo (conjunto de características biológicas padronizadas) de cada uma; estaremos, portanto, falando de padrões idealizados, e não de pessoas reais. Estas se aproximarão, umas mais e outras menos, de cada fenótipo-padrão racial; mas sempre terão, na mistura de seus genes, nos descaminhos de seu DNA, nas características herdadas de seus ancestrais e nas peculiaridades que lhes são impostas pelo "mutatis mutandi" da natureza, um retrato pessoal, único e só parcialmente transferível (a seus descendentes).
E está comprovado que modelos raciais que buscam comparar capacidade intelectual, beleza física, tendências civilizatórias, resistência à fadiga ou vigor sexual não passam de delírios a que se entregaram pseudo-cientistas de pseudo-ciências, como a frenologia - quase todos defensores da "superioridade" branca.
Sim, podemos dizer que existe uma "raça negra", uma "raça amarela" e uma "raça branca"... mas, salvo a quantidade de melanina (eumelanina escura ou feomelanina vermelho-amarelada), poucas características distintivas poderão ser incluídas na descrição do fenótipo; e basta essa única para derrubar todo o edifício laboriosamente construído pelos que insistem na separação das raças. A quantidade de melanina varia de ZERO (no albino doentio de qualquer raça) até o negro retinto, ou o oriental amarelo-cenoura, cujas epidermes são incapazes de produzir, em climas temperados, a vitamina D nos níveis indispensáveis à boa formação dos ossos e dentes. Eu me dou bem com meu nível de melanina, obrigado, e acho que aceitaria uma boa margem de variação para mais ou para menos sem maiores problemas. Se você não gosta do seu nível, o problema é seu e do seu dermatologista.
Voltando ao livro, não o recomendo como simples leitura para as horas de lazer. A obra é mais para estudiosos do assunto, como meu amigo Jair. E acho que vou conseguir completar a leitura lá pelo Dia do Zumbi...
Quero terminar essa matéria parabenizando dois blogs que sempre foram ativos na luta contra preconceitos, em geral; há muitos outros, mas esses estão - por acaso - soprando sua primeira velinha por estes dias. Clique nos "links" abaixo se quiser visitar os seus "posts" inaugurais.
Parabéns, Balaio. Parabéns, Xipan.
Parabéns, Simone e Tatto... felicidades e longa vida!
