Final de 1970, início de 1971. Pais de primeira viagem, eu e Maria Helena curtíamos com a nossa princesinha Beatriz as férias na casa de meus pais, em Niterói. Minha irmã Dôra também exibia orgulhosa seu primogênito, o Luís Antônio. E Iracema, ajudante-de-ordens de mamãe, se desdobrava para atender as tarefas domésticas e cuidar de sua pretinha, a Iaciara, de modo que a grande casa parecia mais uma creche, onde fraldas, roupinhas e carinhos eram partilhados sem qualquer receio pelas três mães, que dividiam entre si os cuidados com as crianças.
Beatriz e Iaciara, gulosas, nunca estavam satisfeitas após serem amamentadas. Já Luís Antônio não dava conta do excesso de leite da Dôra. E assim, num processo natural, as mães dividiam proporcionalmente entre os filhos o leite que tinham.
Em duas ou três ocasiões, vi minha irmã com duas crianças mamando ao mesmo tempo; numa dessas a pretinha Iaciara contrastando vivamente com a outra criança - acho que a Beatriz, que tinha a pele muito clara.
Tempos mais tarde, ao comentar essas reminiscências com amigos, alguém me disse que eu deveria ter tirado fotos para documentar o acontecimento. É verdade; mas aquelas atitudes nos pareciam na época tão naturais - pelo menos em nossa família - que ninguém se preocupou com esse detalhe.
Aliás, acho que ninguém devia se preocupar, mesmo... essa matéria deveria despertar pouco interesse, fatos como esse deveriam ser corriqueiros. E parece que estão se tornando, deveras, mais comuns que antigamente - mas foi difícil achar uma boa imagem na internet (prometo repassar aos detentores dos direitos cada centavo que ganhar com esta matéria)...
Por isso acho que continua valendo o registro. Haverá talvez ainda quem escolha uma ama-de-leite pela cor da pele.
Feliz Dia das Mães, para todas elas e para seus filhos.
Feliz 13 de Maio para todos os que se libertaram e para tantos que ainda hoje aguardam uma nova abolição - qualquer que seja o tom de sua pele ou a cor de sua alma. E aguardem... tenho mais uma trombonada para celebrar a data.

