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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Longe...


     Vez por outra, remexendo nos arcanos da memória, salta-me lá de dentro, como um coelho assustadiço, uma lembrança que empacou no seu caminho para o esquecimento. E desta vez lembrei-me do meu pai, declamando trovas e poemetos para passar o tempo, nas tardes chuvosas dos fins-de-semana, quando faltava eletricidade ou o velho rádio a válvulas falhava na sua obrigação de entreter a família com as "Histórias do Tio Janjão", as aventuras de "Radar, o Homem do Espaço", os episódios de "Jerônimo, o Herói do Sertão" ou os percalços de um detetive cujo nome já me fugiu caminho afora. E um dos nossos poeminhas preferidos - talvez pela atmosfera de suspense que ia num crescendo até o final, era este.
     É claro que já sabíamos o desfecho, mas adorávamos ver o "seu" Eurico, com seus gestos grandiloquentes e sua voz empostada, demorar-se nas pausas finais... só pra terminar num anticlímax que sempre nos arrancava gostosas gargalhadas.


Lá longe...

O sol, no horizonte recostado,
Da sua cama corre a grã cortina;
E a lua, por temer um resfriado,
Envolve-se num manto de neblina.

Uma nuvem, hiperbólica e amável,
Qual fumaça de celeste pito,
Parecia um remendo formidável
Costurado nos calções do infinito!

As nuvens, no espaço já crescendo
Semelhavam magnífico repolho;
E o céu, em trevas se envolvendo,
Não via nada - parecia estar caolho.

E lá longe, muito ao longe, bem ao longe,
Além daquela serra rendilhada...
Eu repito: Lá longe...
...muito ao longe...
...bem ao longe...
...
...mais ao longe...
...
...não se vê nada!