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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Niterói

     Diz ele que não acredita em Deus. Mas acho que Deus não se incomoda com isso. E certamente Deus acredita nele.
     Ele tem obras assinadas espalhadas pelos cinco continentes. Famoso, rico, respeitado, Oscar Niemeyer poderia ter escolhido qualquer lugar do mundo como residência. Preferiu Niterói.
*   *   *   *   *
     Não é preciso entender de arquitetura ou ter senso artístico refinado. Basta ser um pouco observador para notar o perfeito paralelismo entre as inclinações da encosta sudeste do Pão de Açúcar, no Rio, e a parede do Museu de Arte Contemporânea, em Niterói.
Imagem: http://www.macniteroi.com.br/?page_id=29
     Não é coincidência. Disse Niemeyer: "Como é fácil explicar este projeto! Lembro quando fui ver o local. O mar, as montanhas do Rio, uma paisagem magnífica que eu devia preservar."

     Fundada em 1573 pelo cacique temiminó Araribóia, Niterói comemora mais um ano em 22 de novembro. E tem o que comemorar. O censo de 2010 aponta:
- Praticamente 100% do município tem água tratada;
- 95% do território de Niterói é coberto pelo tratamento de esgoto, enquanto a média nacional é inferior a 20%;
- 97,7% da população acima de quinze anos é alfabetizada.
     É claro que a cidade não está livre das mazelas urbanas do nosso tempo. A especulação imobiliária, o caos no trânsito e o crescimento da violência ligada ao tráfico são problemas desafiadores.
     Mas eu gosto daqui. E o Niemeyer também.
     Parabéns, Niterói!

Niterói, novembro de 2012
Rodolfo Barcellos

     PS: Hoje estou com a consciência negra... por que será?

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Natal triste

     Dezembro de 1961. Faltando uma semana para o Natal, meus irmãos e eu fazíamos planos para arrecadar dinheiro - o suficiente para podermos adquirir ingressos para assistir ao maior espetáculo da época, algo comparável à apresentação de um U2, Rock in Rio ou outro megashow equivalente.
     O Gran Circus Norte-Americano anunciava, entre atrações inéditas, uma nova lona de cobertura, em "nylon", capaz de proporcionar um ambiente fresco, mesmo naquele clima canicular. Nenhum de nós sabia o que era "nylon", mas sabíamos bem o que eram trapezistas, saltimbancos, domadores, e os cartazes - os "reclames" - já naquela época cumpriam sua função de aliciar consumidores aos milhares.
     Tanto assim que os ingressos haviam se esgotado rapidamente para as primeiras apresentações. Os irmãos, frustrados, resignaram-se a adiar sua aventura para a semana seguinte, e saíram para espairecer.
     Naquela tarde de domingo, o Gran Circus pegou fogo. Mais de 300 vítimas (o número subiu depois para cerca de 500), a maioria crianças, pereceram queimadas sob toneladas de lona altamente inflamável ou pisoteadas pela multidão em pânico. E nós, ao chegarmos em casa, fomos recebidos com uma mistura de xingamentos, abraços, lágrimas, puxões de orelhas e beijos, tal como nunca tivéramos antes.
     Niterói não se esquecerá daquela semana. Faltavam leitos nos hospitais. Faltavam médicos e enfermeiros. Faltavam macas, ambulâncias, rabecões. Faltavam mesas e gavetões no IML.
     Faltavam medicamentos para tratar tantos queimados. Algum iluminado lembrou-se das propriedades fitoterapêuticas da bananeira, e meus irmãos e eu passamos aquela semana cortando folhas, cachos e pedúnculos de bananeiras, abundantes na vizinhança, que eram transportadas para os hospitais, onde as folhas eram usadas como compressas ou lençóis e a seiva como medicamento tópico.
     Faltava gelo. Todos os que tinham uma geladeira passaram a semana fabricando gelo para atender à demanda. Mamãe não tinha braços a medir.
     Faltavam soros e bebidas hidratantes para os feridos. Minhas irmãs juntaram-se a um grupo de meninas que, num balcão improvisado nas proximidades do Hospital Antônio Pedro, fazia litros e mais litros de laranjada.
     Faltavam caixões. O estádio Caio Martins foi tranformado em fábrica de caixões, onde os poucos marceneiros disponíveis trabalhavam vinte horas por dia, orientando voluntários no triste mister.
     Faltavam sepulturas. Faltavam coveiros. Faltavam sacerdotes.
     Faltavam cemitérios. Esgotada a capacidade do Maruí, foi finalizado às pressas, no município vizinho de São Gonçalo, um novo campo santo - o Cemitério de São Miguel.
     Não me lembro de ter perdido algum amigo na tragédia; minha irmã mais velha se lembra da Lenira, que sobreviveu mas ficou com horríveis cicatrizes. Só quando as férias findaram, ao retornar ao colégio, foi que me dei conta, nas conversas com colegas, da dimensão do ocorrido.
     O incêndio tinha sido criminoso. O autor agira por vingança, e fora identificado e preso. Era um desequilibrado mental, Adilson Marcelino Alves, que foi misteriosamente assassinado em 1973, logo após fugir da prisão.
     O terreno calcinado onde se erguera o circo ficou abandonado durante algum tempo, até que um indivíduo resolveu aproveitá-lo. Plantou uma pequena horta e vivia fazendo a travessia Niterói-Rio e vice-versa, anunciando-se como profeta. Esse homem ficou conhecido mundialmente após inscrever seus ensinamentos nas pilastras  dos viadutos do centro do Rio. Sua frase mais conhecida: "Gentileza gera gentileza".
     Ainda hoje há quem busque parentes que desapareceram naquele dia. Pelo que sei, alguns restos não identificados jazem ainda no Cemitério do Maruí.
     Confira detalhes da tragédia em:
http://www.jblog.com.br/hojenahistoria.php?itemid=6385
     E sobre o valor da seiva da bananeira no tratamento de queimaduras:
http://www.syntonia.com/textos/textossaude/textosfitoterapia/queimaduratratadacombanana.htm
     Em dezembro serão passados 50 anos. Como não é ano eleitoral, creio que estaremos razoavelmente a salvo de pronunciamentos hipócritas. Mesmo assim, acho que as autoridades municipais deveriam programar alguma coisa - um memorial ou capela no local da tragédia, uma cerimônia ecumênica e, principalmente, uma tentativa séria de identificar os restos que porventura ainda existam, pelo uso de técnicas mais modernas e com o apoio das pessoas que ainda buscam seus entes queridos, desaparecidos há tanto tempo. Com a palavra, o Sr. Jorge Roberto Silveira.
     Com ou sem tais providências, muitos se lembrarão em silêncio, e em silêncio farão suas orações. E depois?
     Depois, a vida continua...