PRIMEIRA PARTE
A grande nave aproximava-se silenciosamente do terceiro planeta. Os escudos de camuflagem, ajustados para invisibilidade total, absorviam todas as radiações eletromagnéticas e as re-emitiam no ponto antípoda do escudo, de modo que nem mesmo o seu bloqueio desse a algum observador mais atento qualquer indício da presença da nave-espiã. Apenas uma quantidade mínima era desviada para sensores e antenas supersensíveis - os olhos e ouvidos da nave.
* * * * *
Na ponte de comando, dois oficiais trocavam idéias:- Só se passaram trezentos anos - disse An-Sard, a oficial de segurança. - Acho essas medidas um pouco exageradas para um planeta que mal saiu da idade do bronze.
- A escala de tempo deles é bem mais acelerada que a nossa - retrucou El-Noel, o comandante. - Lá já se passaram mais de dois mil anos. Todo cuidado é pouco.
Os dados dos sensores deram razão a El-Noel. O terceiro planeta emitia sinais de rádio com material acústico e visual em profusão, a maioria em códigos digitais. Redes de satélites foram detetadas e em poucos momentos os filtros seletivos haviam classificado montanhas de informações.
- Hora de divulgar as ordens secretas - decidiu o comandante.
An-Sard era a única, além de El-Noel, que conhecia a real missão da Es-Sotamer, mas seguiu o protocolo exigido: convocou as testemunhas - Ar-Ji, o navegador, Ot-att, o engenheiro, El-Meni, a oficial de comunicações, Er-Nagi, a segunda-oficial. No lugar da piloto Es-Moni, que estava ausente em missão de observação remota, foi requisitada a presença da doutora Am-Cira.
Os demais integrantes do Estado-maior permaneceram em seus postos: Il-Lam, Em-yr, El-Menair, oficiais táticos; Ar-Çag, Chefe da Logística, En-Desi, Al-Car e as irmãs Es-Rave e En-Ravi, operadores setoriais. An-Aihn, a jovem alferes, Am-Arrefrei, Ul-Ichivoilca, Éyn-Adar, Al-Ioit, An-Gilhor, El-Regien, En-Ocao (que os amigos mais chegados chamavam de Cecília dos Sonhos Azuis), Éor-Dab, A-Is, Alm-éia, Yé-Mae, Er-Sogi, An-Thy e Am-Azir repousavam em seus alojamentos ou aproveitavam seu turno de folga na cantina ou no ginásio. Com 160 tripulantes, a Es-Sotamer ainda se ressentia da falta de alguns integrantes que haviam pedido baixa.
O envelope branco, lacrado à antiga com cera vermelha, foi aberto com os rituais de praxe. El-Noel sacou dele duas folhas com o timbre do Almirantado. Inseriu uma delas na leitora e logo a grande tela exibia o texto:
Do Comando Geral da Frota
Ao Comandante da "Es-Sotamer"
Ordem 41-X-003
Destino: Sistema da estrela Sol, quadrante de Centauro.
Histórico: Missões não tripuladas anteriores indicam que o evento cósmico conhecido universalmente como "Luz Nova" provocou no terceiro planeta do sistema efeitos anômalos.
Instruções: Investigar e agir conforme Procedimento Padrão de Emergência, seção 15.
Assinado: Comodoro El-Lobsarc, R. R.
Por Ordem do Almirantado.
- Que evento é esse? - perguntou Er-Nagi.
- É aquele conhecido, no seu planeta, como "Luz Nascente" - explicou Ot-Att.
Er-Nagi lembrou-se das festividades que marcavam, em Delta Crucis 4, o advento da luz. E do espanto que experimentara ao saber que o mesmo acontecimento era celebrado, em épocas e sob formas diferentes, em todos os mundos habitados do Universo conhecido.
Nas três estrelas de Alfa do Centauro, chamava-se "A Mãe", e celebrava o nascimento de uma mulher milagrosa, que unira pela simples força de seus ensinamentos os três impérios estelares. Em Rigel - terra de Ar-Çag - fora um homem humilde do povo, nascido em uma família numerosa, que estabelecera a paz entre as forças conflitantes. Mas sempre os maiores benefícios eram no crescimento moral, espiritual e intelectual das pessoas de todas as classes. A lista de mundos afetados não tinha fim.
Todas as tradições mencionavam o aparecimento de um astro particularmente luminoso. Por isso, os cientistas acreditavam que tratava-se de um evento único, tendo em comum a eclosão de uma Supernova do tipo I, em algum lugar ainda desconhecido da Galáxia. E assim, com base na velocidade da luz e nos relatos antigos, rastreavam os eventos e suas épocas, na esperança de determinar o foco primitivo.
Havia os que não aceitavam essas explicações.
- Isso não tem lógica! - insistia Ar-Ji.
- Suas orelhas pontudas também não têm lógica! - retrucava El-Meni.
Ul-Ichivoilca, já em seu posto de pilotagem, interrompeu a discussão, anunciando:
- Nave estabilizada em órbita polar, senhor!
- Obrigado, Ul. Er-Nagi e Ot-Att, coordenem a análise dos dados. Prioridade um.
* * * * *
El-Meni nunca havia participado de uma reunião secreta de nível máximo. E ao tomar conhecimento da lista de convocados sua apreensão cresceu."Engenharia, Armamento, Segurança, Logística, Comunicações e mais a doutora... isso cheira a combate!"
El-Noel abriu a reunião:
- As análises estão concluídas. O evento cósmico, aqui conhecido como "Natal", é festejado a cada órbita completa do planeta, entre um dos solstícios e o periélio - daqui a dois dias-padrão. Mas embora uma parcela do povo mantenha-se fiel aos influxos originais do evento - na figura de um Salvador - tudo indica que a Luz da Estrela, como é chamada no meu planeta, foi obliterada ou distorcida desde o começo.
- Mas como?
- Não sabemos. Mas os registros de guerras e morticínios, perseguições e injustiças, ambição desmedida e violências contra os fracos são incontestáveis.
- Mas... e esse Salvador?
- Eles o mataram. Três ou quatro décadas depois de seu nascimento, eles o torturaram e mataram.
Murmúrios de incredulidade. Depois, silêncio. Todos sabiam o significado daquela declaração.
- Teremos que aniquilar a vida neste planeta - a voz de El-Noel estava tensa. - Não podemos arriscar que toda a Galáxia seja contaminada por um único fruto podre. El-Menair, elabore o plano tático da operação.
- Sim, comandante.
Havia tristeza na voz dela. A reunião foi encerrada em silêncio.
* * * * *
Rodolfo Barcellos - Dezembro de 2011
Nota: Quando fui programar a publicação desta primeira parte para as dez da noite, cometi um erro (ainda bem que não sou piloto espacial ou astronavegador); e para evitar que os amigos recebessem falsas atualizações, resolvi antecipar a publicação.Rodolfo Barcellos - Dezembro de 2011
A continuação deste conto estará sendo publicada, ainda hoje (espero), no Empório do Café Literário.
http://emporiodocafe.blogspot.com/2011/12/um-conto-de-natal-segunda-parte.html
