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terça-feira, 18 de setembro de 2012

Uma de menos

A persistência da memória - Salvador Dali

     O tempo escorre lentamente do relógio, em tiquetaques preguiçosos e vadios. É o velho demônio irritante, tirando do saco de minha vida, já meio murcho, uma moeda a cada tique e atirando-a no saco sem fundo da eternidade a cada taque. E ele faz isso sorrindo, sarcástico, para mim. "Uma de menos... uma de menos... uma de menos..." - vai ele desfiando a ladainha dos segundos que se perdem sem resgate.
     Mas hoje, demônio velho, não cairei nesse truque psicológico barato. Não ligarei a TV, não lerei livros ou jornais, não telefonarei para ninguém. Porque sei que ela, a minha amada, está vindo.
     Desfia a tua ladainha, velho demônio, desfia-a mais rápido, que os segundos da espera não se contam como aqueles da tristeza. E quando minha amada estiver em meus braços, será minha vez de contar: "uma a mais, uma a mais, uma a mais..."
     Pois dela os beijos são vida, e os carinhos são eternidade, e seu amor não cabe neste ridículo universo onde espaço e tempo têm seus limites. Ela me levará nas asas da paixão e me guiará para onde não se contam moedas, onde não há sacos de diferentes tamanhos, onde os demônios contadores se encolhem envergonhados e perecem à míngua de relógios, onde tempo não é dinheiro e dinheiro não é mais que fumaça. E lá escarneceremos de ti, até o fim dos tempos.
*  *  *  *  *
      Esse pequeno ensaio foi publicado no Quiosque do Pastel em 17/11/2011, e eu achei que ele merecia uma reedição, em homenagem à primavera que está chegando.

Niterói, setembro de 2012
Rodolfo Barcellos

     PS: os "blogs" O Livro Imortal e A Biografia do Fogo, do Moisés Poeta, estão completando dois e três anos por esses dias. Parabéns ao amigo. http://olivroimortal.blogspot.com/2010/09/benjamin-franklin.html
http://biografiadofogo.blogspot.com/2009/09/eu-nao-sou-triste-alegria-vive-sempre.html

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Poema do tempo reencontrado

     Um bate-papo no MSN pode render um bom poema, dependendo da fonte de inspiração. Desta vez - ou mais uma vez - foi a Denise, com sua alegria e entusiasmo pelo sentimento de novas e iminentes realizações. Isso deve ser contagioso...
Perséfone (Internet)
Há mundos, poetisa minha,
Que existem intocados
Mas só por nós visitados.
Neblinas.

Mundos que estão escondidos,
Feitos de espaços perdidos,
Pó de tempos esquecidos.
Sombras.

São lembranças esmaecidas,
Memórias mal revividas,
Fotos amarelecidas.
Saudades.

São céus verdes como mares,
Nuvens azuis pelos ares,
Frutos brancos nos pomares.
Loucuras.

Lá onde o tempo se finda
O espaço nasce ainda
Na espera de tua vinda.
Poesias.

Lá eu me deito em teu colo,
Lá eu me planto em teu solo,
Lá eu bebo tua paz.
Sonhos.

Existem lá mil verdades,
Enganos, versos tristonhos,
Neblinas, sombras, saudades,
Loucuras, poesias, sonhos.

E nesse tempo imanente,
Perdido e reencontrado,
Tu viverás teu presente,
Teu futuro e teu passado.

Niterói, abril de 2012
Rodolfo Barcellos

quarta-feira, 23 de março de 2011

A Linha do Tempo

     Considerações sobre um texto de Léo Santos.

     A minha amiga Milene mandou-me o texto e pediu minha opinião. Bem, a abordagem do Léo a respeito do tempo é excelente e, embora breve, abrange todos os aspectos relacionados ao tempo físico - aquele que a Ciência nos apresenta como quarta dimensão. Mas eu gosto de somar, sempre que possível, e fui buscar alhures uma complementação à altura. Encontrei-a além das fronteiras da Física.
     Pulemos, pois, a cerca que delimita o conceito de tempo aceito pela ciência - o tempo nosso de cada dia, literalmente - e afundemos os pés no terreno movediço da metafísica e dos fenômenos transcendentais. Aqui, muitos se atolaram; é bom caminhar com cautela.
     Não vou falar aqui do tempo relativístico - esse ficou para trás quando pulamos a cerca. Tampouco vou abordar o "tempo psicológico" - aquele que se arrasta nos momentos lúgubres e corre célere nas horas felizes - nem falar sobre experiências de quase-morte, ou estudos sobre reencarnação, ou citar as profecias de Nostradamus. Quero simplesmente contemplar o que deixei para trás ao pular a cerca, mas de uma perspectiva mais ampla.
     E daqui eu vejo uma continuidade temporal, uma linha que se estende de horizonte a horizonte, sem descontinuidades a que eu possa dar nomes como passado, presente ou futuro.
     Sei que, do lado de lá, todos nós temos a ilusão de estarmos situados em um ponto específico dessa linha - não sei se o mesmo para cada um - que chamamos de presente, e que este ponto divide a linha em dois segmentos, que batizamos de passado e de futuro. Mas como saber se a minha ilusão é a mesma que a tua? Vejo-te aqui, no "meu" presente, como te apresentas nele, mas tu talvez estejas em outro ponto da linha, vivenciando realidades que ainda estão no meu futuro ou já fazem parte do meu passado.
     E vejo também que isso que chamamos de presente não é um ponto geométrico, sem dimensões. Ele se estende um pouco à frente e um pouco atrás dessa coisa imponderável e fugidia que chamamos de instante. Sim, dentro desses limites estreitos podemos prever o "futuro" incipiente, e vivenciá-lo, assim como o "passado" recente.
     Vamos tentar ilustrar isso matematicamente.
     A figura abaixo representa a função de distribuição normal. Se z é o eixo do tempo e y=f(z) o do grau de "realidade vivenciada", a área cinzenta será o "presente", centrado no instante zero.

     Devo lembrar ao leitor que entes geométricos como "ponto", "linha" etc, são instrumentos matemáticos e não realidades físicas. Um átomo tem dimensões, embora possa ser considerado, na maioria das vezes, um ponto adimensional. E o tempo também tem existência física: o "agora" tem alguma espessura, e a transição do cinza para o branco deveria mostrar uma gradação suave.
     À esquerda do zero estão em cinza as memórias muito recentes e vivas, fazendo parte do nosso presente, e em branco as memórias mais distantes e imprecisas - o nosso passado. À direita do zero, em cinza, a realidade previsível a curto prazo - a tecla que vou clicar, a palavra que vou escolher - e isso também faz parte do meu "presente". A área branca sob a curva, à direita, é nosso futuro mais distante e impreciso. E embora possamos colocar lá nossos projetos de longo prazo, esse futuro é basicamente imprevisível (assim como a imensa maioria dos detalhes de nosso passado distante está perdida).
     O eixo do Tempo será graduado, obviamente, em minutos, dias, anos... o que for mais conveniente; já para o eixo da "realidade vivenciada", pelo que eu saiba, ainda não há unidades de medida definidas.
     Recordar é o processo de resgatar pedaços sobreviventes de nosso passado e trazê-los para a área cinza, onde se tornarão parte de nossa realidade vivenciada no presente, recebendo assim um "reforço existencial" que lhes aumentará a sobrevida quando os devolvermos ao passado. Aquilo que chamamos "saudade" é um instrumento subconsciente que faz parte integrante desse processo.
     Traçar planos, fazer projetos, sonhar, é o processo similar aplicado ao futuro. E as ações no presente que visam reforçar a "viabilidade" desses sonhos e projetos - estudos, investimentos etc. - fazem o mesmo papel que a saudade tem em relação ao passado, pois ajudam-nos a "não esquecer" o futuro.
     Assim, à esquerda do ponto zero, a realidade vivenciada vai perdendo a força e se transformando em memórias, conforme a curva se desloca no tempo; à direita ocorre o processo inverso: as expectativas vão se solidificando em realidade até atingir o grau máximo - o momento zero, o fugidio "agora", o instante em que a expectativa se realiza plenamente. Esses processos formam o que chamamos "vivência" e são, claro, diferentes para cada um de nós.
     Tu és - nós todos somos - as lembranças e as saudades dos que estão em nosso futuro.
     Tu és - nós todos somos - as profecias e os sonhos dos que estão em nosso passado.
     Mas temos uma arma poderosa que os demais viventes do planeta não têm: podemos registrar o presente em imagens, sons e textos escritos, como este, e assim dar-lhe uma imortalidade relativa; e podemos também registrar nossos projetos e assim aperfeiçoar continuamente nossa estratégia para trazê-los para o mundo real.
     Podemos, sim, recordar nosso passado - até um certo ponto. Qual foi mesmo o prato do almoço de nove de dezembro do ano passado?
     Podemos, sim, influenciar nosso futuro - até um certo ponto. Não conheço nenhuma realização humana que não tenha sido, um dia, um sonho... um projeto. Alguém conhece?

     Niterói, 23 de março de 2011 - Rodolfo Barcellos


terça-feira, 23 de novembro de 2010

Eternidade

A persistência da memória - Salvador Dali

- Eu sempre me achei muito seguro. Para mim, a Rê e seus colegas de profissão estariam desempregados se todos fossem como eu.
- Ledo engano. Nesses últimos dias, sem que eu percebesse, ela me deitou em seu divã, me analisou, fez seu diagnóstico e me prescreveu a melhor terapia: escrever.
- E ela soube induzir-me ao tratamento: mandou-me em comentário, há alguns dias, um soneto do Mário Quintana que já se havia sumido de minha lembrança:


AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
Quando um dia eu me for de vossas vidas
Em seus fúteis problemas tão perdidas
Que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
Não o conhece a vida - a verdadeira -
Em que basta um momento de poesia
Para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
Somente por si mesma é dividida:
Não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
Quando alguém - ao voltar a si da vida -
Acaso lhes indaga que horas são...

- Pois não é que o bendito sonetinho ficou me azucrinando as idéias? Foi de propósito, né, dona Rê?

- Bem, tenho uma superabundância de tempo - que, conforme alerta Mark Twain, não é dinheiro - e resolvi exorcizar o soneto tomando-o como mote e compondo uma glosa, em tercetos:
 

GLOSA

Não quero constar de Martirológios,
E se a hora chegar das despedidas,
Amigos, não consultem os relógios

Pois horas eu vivi tão bem vividas
Que as cantarei em salmos eloquentes
Quando um dia eu me for de vossas vidas

Em frações de minutos repartidas
Essas horas  não foram, por contentes,
Em seus fúteis problemas tão perdidas

E se querem fazer-me apológios
Não mos façam como os da negra sorte
Que até parecem mais uns necrológios...

Sejam mais como beijos de consorte
E não como areia de ampulheta
Porque o tempo é uma invenção da morte

A natureza, à sua maneira
Do tempo desconhece esta faceta;
Não o conhece a vida - a verdadeira -

Para tornar tristeza em alegria
Eventos há - a alma é parceira -
Em que basta um momento de poesia

Não queiras tu tapar Sol com peneira
Pois basta de um segundo uma fatia
Para nos dar a eternidade inteira.

Inteira como o é uma caverna
Onde há túneis infindos sem saída;
Inteira, sim, porque essa vida eterna

Em divisões nunca será partida;
Toda fração é una e sempiterna,
Somente por si mesma é dividida

Assim inteira é da glória a ação:
Na derrota ou vitória aos soldados
Não cabe, a cada qual, uma porção.

Heróis e mártires serão amados
Eternamente, sem qualquer senão;
E os Anjos entreolham-se espantados

Buscando tontos resposta pedida,
E ficam sempre em grande confusão
Quando alguém - ao voltar a si da vida -

Do Paraíso a alma no portão,
Do fútil que é o tempo esquecida
Acaso lhes indaga que horas são...