Considerações sobre um texto de Léo Santos.
A minha amiga Milene mandou-me o texto e pediu minha opinião. Bem, a abordagem do Léo a respeito do tempo é excelente e, embora breve, abrange todos os aspectos relacionados ao tempo físico - aquele que a Ciência nos apresenta como quarta dimensão. Mas eu gosto de somar, sempre que possível, e fui buscar alhures uma complementação à altura. Encontrei-a além das fronteiras da Física.
Pulemos, pois, a cerca que delimita o conceito de tempo aceito pela ciência - o tempo nosso de cada dia, literalmente - e afundemos os pés no terreno movediço da metafísica e dos fenômenos transcendentais. Aqui, muitos se atolaram; é bom caminhar com cautela.
Não vou falar aqui do tempo relativístico - esse ficou para trás quando pulamos a cerca. Tampouco vou abordar o "tempo psicológico" - aquele que se arrasta nos momentos lúgubres e corre célere nas horas felizes - nem falar sobre experiências de quase-morte, ou estudos sobre reencarnação, ou citar as profecias de Nostradamus. Quero simplesmente contemplar o que deixei para trás ao pular a cerca, mas de uma perspectiva mais ampla.
E daqui eu vejo uma continuidade temporal, uma linha que se estende de horizonte a horizonte, sem descontinuidades a que eu possa dar nomes como passado, presente ou futuro.
Sei que, do lado de lá, todos nós temos a ilusão de estarmos situados em um ponto específico dessa linha - não sei se o mesmo para cada um - que chamamos de presente, e que este ponto divide a linha em dois segmentos, que batizamos de passado e de futuro. Mas como saber se a minha ilusão é a mesma que a tua? Vejo-te aqui, no "meu" presente, como te apresentas nele, mas tu talvez estejas em outro ponto da linha, vivenciando realidades que ainda estão no meu futuro ou já fazem parte do meu passado.
E vejo também que isso que chamamos de presente não é um ponto geométrico, sem dimensões. Ele se estende um pouco à frente e um pouco atrás dessa coisa imponderável e fugidia que chamamos de instante. Sim, dentro desses limites estreitos podemos prever o "futuro" incipiente, e vivenciá-lo, assim como o "passado" recente.
Vamos tentar ilustrar isso matematicamente.
A figura abaixo representa a função de distribuição normal. Se z é o eixo do tempo e y=f(z) o do grau de "realidade vivenciada", a área cinzenta será o "presente", centrado no instante zero.
Devo lembrar ao leitor que entes geométricos como "ponto", "linha" etc, são instrumentos matemáticos e não realidades físicas. Um átomo tem dimensões, embora possa ser considerado, na maioria das vezes, um ponto adimensional. E o tempo também tem existência física: o "agora" tem alguma espessura, e a transição do cinza para o branco deveria mostrar uma gradação suave.
À esquerda do zero estão em cinza as memórias muito recentes e vivas, fazendo parte do nosso presente, e em branco as memórias mais distantes e imprecisas - o nosso passado. À direita do zero, em cinza, a realidade previsível a curto prazo - a tecla que vou clicar, a palavra que vou escolher - e isso também faz parte do meu "presente". A área branca sob a curva, à direita, é nosso futuro mais distante e impreciso. E embora possamos colocar lá nossos projetos de longo prazo, esse futuro é basicamente imprevisível (assim como a imensa maioria dos detalhes de nosso passado distante está perdida).
O eixo do Tempo será graduado, obviamente, em minutos, dias, anos... o que for mais conveniente; já para o eixo da "realidade vivenciada", pelo que eu saiba, ainda não há unidades de medida definidas.
Recordar é o processo de resgatar pedaços sobreviventes de nosso passado e trazê-los para a área cinza, onde se tornarão parte de nossa realidade vivenciada no presente, recebendo assim um "reforço existencial" que lhes aumentará a sobrevida quando os devolvermos ao passado. Aquilo que chamamos "saudade" é um instrumento subconsciente que faz parte integrante desse processo.
Traçar planos, fazer projetos, sonhar, é o processo similar aplicado ao futuro. E as ações no presente que visam reforçar a "viabilidade" desses sonhos e projetos - estudos, investimentos etc. - fazem o mesmo papel que a saudade tem em relação ao passado, pois ajudam-nos a "não esquecer" o futuro.
Assim, à esquerda do ponto zero, a realidade vivenciada vai perdendo a força e se transformando em memórias, conforme a curva se desloca no tempo; à direita ocorre o processo inverso: as expectativas vão se solidificando em realidade até atingir o grau máximo - o momento zero, o fugidio "agora", o instante em que a expectativa se realiza plenamente. Esses processos formam o que chamamos "vivência" e são, claro, diferentes para cada um de nós.
Tu és - nós todos somos - as lembranças e as saudades dos que estão em nosso futuro.
Tu és - nós todos somos - as profecias e os sonhos dos que estão em nosso passado.
Mas temos uma arma poderosa que os demais viventes do planeta não têm: podemos registrar o presente em imagens, sons e textos escritos, como este, e assim dar-lhe uma imortalidade relativa; e podemos também registrar nossos projetos e assim aperfeiçoar continuamente nossa estratégia para trazê-los para o mundo real.
Podemos, sim, recordar nosso passado - até um certo ponto. Qual foi mesmo o prato do almoço de nove de dezembro do ano passado?
Podemos, sim, influenciar nosso futuro - até um certo ponto. Não conheço nenhuma realização humana que não tenha sido, um dia, um sonho... um projeto. Alguém conhece?
Niterói, 23 de março de 2011 - Rodolfo Barcellos