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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Augúrios de Inocência, 31-35

     Concluo, com estas cinco estrofes, este trabalho de tradução, que me tirou algumas horas de sono e me deu em contrapartida algum conhecimento a mais da literatura inglesa pré-vitoriana.
     William Blake (Londres, 1757 - 1827) viveu num período significativo da história, marcado pelo Iluminismo e pela Revolução Industrial na Inglaterra. A literatura estava no auge do que se pode chamar de clássico "augustano", uma espécie de paraíso para os conformados às convenções sociais, mas não para Blake que, nesse sentido era romântico, "enxergava o que muitos se negavam a ver: a pobreza, a injustiça social, a negatividade do poder da Igreja Anglicana e do estado." (Excerto da Wikipedia)

     Segundo alguns estudiosos, o simbolismo presente em "Augúrios de Inocência" pode ser assim resumido:
     Cão – o mendigo.
     Cavalo – o servo, o escravo.
     Galo – o soldado.
     Cordeiro – o sacrifício de Jesus.
     Morcego – o espectro humano.
     Coruja – a humanidade perdida nas trevas, temendo um Deus desconhecido.
     Lagarta – a humanidade emergindo do útero ou casulo da natureza, a expulsão do Paraíso.
     Saltar sobre a barra – entrar num mundo novo.
     Ondas – o oceano do espaço e do tempo.
     Formiga e águia – percepção do muito próximo e do muito distante.
Roubei - acho - da Regina. Não sei de quem ela roubou.

31
The winner's shout, the loser's curse,
Dance before dead England's hearse.
Do vencedor o brado, do perdedor a manha,
Dançam diante do féretro da Grã-Bretanha.

32
Every night and every morn
Some to misery are born,
Every morn and every night
Some are born to sweet delight.
Cada noite fria, cada manhã etérea
Alguns nascem para a miséria,
Cada manhã morna, cada noite fria
Alguns nascem para a alegria.

33
Some are born to sweet delight,
Some are born to endless night.
Alguns nascem para a alegria,
Alguns nascem para a noite fria.

34
We are led to believe a lie
When we see not thro' the eye,
Which was born in a night to perish in a night,
When the soul slept in beams of light.
Em mentiras seremos levados a acreditar
Se com nosso olho não quisermos olhar,
O que nasceu à noite e à noite pereceu,
Quando em feixes de luz a alma adormeceu.

35
God appears, and God is light,
To those poor souls who dwell in night;
But does a human form display
To those who dwell in realms of day.
Deus aparece, e Deus é luz forte,
Às almas noturnas que vagam à sorte;
Mas Deus manifesta-se em humano semblante
Aos que habitam os reinos do dia brilhante.


- FIM -

Niterói, fevereiro de 2013
Rodolfo Barcellos

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Augúrios de Inocência, 26-30

Júlio César laureado
- moeda romana antiga
(Internet)
     Após o recesso momesco retomo este trabalho de tradução do poema de William Blake. Tive dificuldades com alguns termos do inglês arcaico, principalmente com a palavra "emmet", na estrofe 28. Finalmente achei seu significado no site Babylon: é a forma antiga de "ant" - formiga. O contexto parece indicar a forma alada do inseto, mas preferi não usar "içá" ou "tanajura", a meu ver restritos à saúva brasileira, espécie sem similar na Inglaterra. Descartei também "siriluia", "aleluia" e outros tais. E obrigado à Denise pelos bons palpites na tradução da estrofe 26 - a glória que envenena o vencedor, a couraça que engessa o lutador.

26
The strongest poison ever known
Came from Caesar's laurel crown.
Nought can deform the human race
Like to the armour's iron brace.
O mais forte veneno encontrado
Vem dos louros de César coroado.
Nada deforma tanto a humana raça
Como a armadura de ferro que a abraça.

27
When gold and gems adorn the plow,
To peaceful arts shall envy bow.
A riddle, or the cricket's cry,
Is to doubt a fit reply.
Quando ouro e jóias ornarem o arado na terra
Às artes da paz invejará o arco de guerra.
Ao trilar de um grilo, ou a uma charada,
Nem sempre se encontra resposta adequada.

28
The emmet's inch and eagle's mile
Make lame philosophy to smile.
He who doubts from what he sees
Will ne'er believe, do what you please.
Da águia a milha, da formiga a polegada
Fazem sorrir a filosofia aleijada.
Quem duvida do que seu olho vê
Nunca terá fé, faça o que fizer você.

29
If the sun and moon should doubt,
They'd immediately go out.
To be in a passion you good may do,
But no good if a passion is in you.
Se sol e lua chegarem a duvidar
Eles imediatamente irão se apagar.
Você estar em paixão pode ser belo dom,
Mas se a paixão está em você, não é bom.

30
The whore and gambler, by the state
Licensed, build that nation's fate.
The harlot's cry from street to street
Shall weave old England's winding-sheet.
Meretriz e jogador, com o aval do Estado
Constroem da nação o destino e o fado.
O grito da prostituta, que nas ruas berra,
Tecerá a mortalha da velha Inglaterra.

Niterói, fevereiro de 2013
Rodolfo Barcellos

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Augúrios de Inocência, 21-25

     A essa altura da tradução já se percebe claramente a influência das visões do Apocalipse nas estrofes deste poema. Blake nos brinda com fortes contrastes entre o ser humano e a natureza, a culpa e a inocência, a recompensa e o castigo, a vida e a morte, o Bem e o Mal.
O Juízo Final - Fra Angélico (Wikipedia)
21
The soldier, arm'd with sword and gun,
Palsied strikes the summer's sun.
The poor man's farthing is worth more
Than all the gold on Afric's shore.
Armado com espada e fuzil, o soldado
Ataca em vão o sol de verão, paralisado.
O centavo do pobre vale mais em seu poder
Que todo o ouro das praias africanas pode valer. 

22
One mite wrung from the lab'rer's hands
Shall buy and sell the miser's lands;
Or, if protected from on high,
Does that whole nation sell and buy.
Um percevejo retorcido às mãos do empregado operoso
Comprará e venderá as terras do ganancioso;
Ou, se receber mais alta proteção,
Venderá e comprará toda a nação.

23
He who mocks the infant's faith
Shall be mock'd in age and death.
He who shall teach the child to doubt
The rotting grave shall ne'er get out.
Quem zomba da fé da criança, sua sorte
É ser escarnecido em vida e na morte.
Aquele que ensina a criança a duvidar
O túmulo da podridão nunca irá deixar.

24
He who respects the infant's faith
Triumphs over hell and death.
The child's toys and the old man's reasons
Are the fruits of the two seasons.
Quem respeita a fé da criança, sua sorte
É triunfar sobre o inferno e a morte.
Da criança os brinquedos, do velho as razões
São os frutos dessas duas estações.

25
The questioner, who sits so sly,
Shall never know how to reply.
He who replies to words of doubt
Doth put the light of knowledge out.
O inquiridor que usa perguntas capciosas
Não tem resposta a questões ponderosas.
Mas quem esclarece a dúvida proposta
A luz do conhecimento deixa exposta.

Niterói, fevereiro de 2013
Rodolfo Barcellos

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Augúrios de Inocência, 16-20


     À medida em que vou avançando na tradução, vou encontrando pela WEB diferentes análises e interpretações deste poema. A própria estrutura das estrofes sugere que os versos foram compostos como provérbios ou aforismos independentes, a partir das visões apocalípticas de Blake.
A Criação de Adão - Michelângelo

16
It is right it should be so;
Man was made for joy and woe;
And when this we rightly know,
Thro' the world we safely go.
Assim é que é, e assim deve ser;
O homem foi feito para dor e prazer;
E se essa verdade for bem compreendida,
Seguros iremos nas trilhas da vida.

17
Joy and woe are woven fine,
A clothing for the soul divine.
Under every grief and pine
Runs a joy with silken twine.
A dor e a alegria são a veste fina,
A roupa que cobre a alma divina.
Debaixo de toda tristeza e penar
Há uma alegria para presentear.

18
The babe is more than swaddling bands;
Every farmer understands.
Every tear from every eye
Becomes a babe in eternity;
O bebê é mais do que pano enrolado;
Todo lavrador está familiarizado.
Cada lágrima de cada olho, em verdade,
Torna-se um bebê na eternidade;

19
This is caught by females bright,
And return'd to its own delight.
The bleat, the bark, bellow, and roar,
Are waves that beat on heaven's shore.
Este é recolhido na luz das mulheres,
E resgatado para seus próprios prazeres.
O lamento, o latido, ganido e engulhos,
São ondas nas margens do céu, em marulhos.

20
The babe that weeps the rod beneath
Writes revenge in realms of death.
The beggar's rags, fluttering in air,
Does to rags the heavens tear.
O bebê que chora sob cruel castigo
Nos reinos da morte condena o inimigo.
Os trapos do pobre, flutuando ao ar,
Em muitos farrapos os céus vão rasgar.

Niterói, janeiro de 2013
Rodolfo Barcellos

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Augúrios de Inocência, 11-15

     E prossegue este desafio, e muitos amigos querendo ajudar - e ajudando, alguns com valiosas sugestões e outros no entusiasmo da torcida. É gratificante esse apoio, e pretendo ao final esmiuçar todas as sugestões. Por enquanto, ainda estou pesquisando o "chafer's sprite" e o "bower".  E no folclore irlandês há referências fascinantes sobre o "Coshta Bower" ou "Death Bower" - o Coche da Morte - e há também o relato de Bernard Cornwell, em "O Rei do Inverno",  sobre a tradição de construir caramanchões (bowers) durante o Festival da Colheita, o Lughnasa. E no sincretismo que brotou da luta religiosa entre missionários cristãos e sacerdotes druidas, encontrei o "black chafer" - o besouro negro que traiu Jesus, guiando os soldados romanos que o perseguiam.
Imagem: http://bugguide.net/node/view/176397/bgimage
11
The caterpillar on the leaf
Repeats to thee thy mother's grief.
Kill not the moth nor butterfly,
For the last judgement draweth nigh.
A lagarta na folha da planta
O luto por tua mãe em ti levanta.
Mariposa e borboleta não matarás
Pois do juízo final próximo estás.
12
He who shall train the horse to war
Shall never pass the polar bar.
The beggar's dog and widow's cat,
Feed them and thou wilt grow fat.
Quem treina o corcel para a guerra
Jamais saltará com ele a barra sobre a terra.
O cão do mendigo e o gato da viúva pobre,
Alimenta-os e livra-te da obesidade que te cobre.
13
The gnat that sings his summer's song
Poison gets from slander's tongue.
The poison of the snake and newt
Is the sweat of envy's foot.
O mosquito que canta sua canção de verão
Suga o veneno da língua do caluniador malsão.
A peçonha da lagartixa e da serpente
É o mau cheiro do pé da inveja silente.
14
The poison of the honey bee
Is the artist's jealousy.
O veneno da abelha do mel
É do artista o ciúme cruel.
15
The prince's robes and beggar's rags
Are toadstools on the miser's bags.
A truth that's told with bad intent
Beats all the lies you can invent.
Os andrajos do mendigo e os mantos da realeza
São cogumelos nas mochilas da avareza.
Uma verdade dita com má intenção
É pior que todas as mentiras de tua invenção.

Niterói, janeiro de 2013
Rodolfo Barcellos.

     Nota importantíssima: Nasceu ontem o Nicolas.


Que soem as trombetas! Que vibrem os clarins!
Que rufem os tambores! Que cantem serafins!
Hoje a Lua dançará com os planetas,
Hoje serão vistos rastros de cometas,
E o Sol brilhará nas rosas e jasmins!


Abençoado este dia
Em que de Thays nasceu
Mais um neto da Poesia
Mais um poema que é seu!
Glória! Hosana! Alegria!
Nicolas é hoje o guia
A estrela resplandeceu!

     Felicidades ao Nicolas e parabéns aos pais, avós, primos, amigos e poesias.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Augúrios de Inocência, 6-10

     Aos trancos e barrancos esta tradução de William Blake vai avançando. O estilo arcaico, pré-vitoriano, e os traços marcantes de uma cultura muito mais antiga têm sido um desafio estimulante, assim como o esquema de rimas. O "tio Google" ajuda muito na pesquisa, mas empaca na tradução...
     Vamos então às estrofes de 6 a 10.
O voo do Sebinho. Foto: Rodolfo Barcellos
6
Every wolf's and lion's howl
Raises from hell a human soul.
Leão e lobo, cada uivo em noite calma
Resgata do inferno humana alma.
7
The wild deer, wand'ring here and there,
Keeps the human soul from care.
The lamb misus'd breeds public strife,
And yet forgives the butcher's knife.
O cervo selvagem que vagueia nos rincões
Liberta a alma humana de preocupações.
O povo discute o abuso do cordeiro
Mas inda perdoa a faca do açougueiro
8
The bat that flits at close of eve
Has left the brain that won't believe.
The owl that calls upon the night
Speaks the unbeliever's fright.
O morcego que adeja ao anoitecer
Confunde a mente que não quer mais crer.
O chamado noturno do corujão, dolente,
Traduz o pavor do descrente.
9
He who shall hurt the little wren
Shall never be belov'd by men.
He who the ox to wrath has mov'd
Shall never be by woman lov'd.
Aquele que fere a carriça indefesa
Não terá o amor dos homens à proeza.
Aquele que a ira ao boi tem suscitado
Nunca por mulher será amado.
10 *
The wanton boy that kills the fly
Shall feel the spider's enmity.
He who torments the chafer's sprite
Weaves a bower in endless night.
O menino que mata a mosca por maldade
Sentirá da aranha a inimizade.
Quem atormenta o espírito da caverna
Tece uma teia na noite eterna.

* Essa estrofe quase me nocauteou. Os dois primeiros versos foram relativamente fáceis, mas quem souber me diga o que é um "chafer's sprite" e se "bower" não seria melhor traduzido como "caramanchão". Parece-me que existe nesses versos uma forte presença das raízes célticas do folclore inglês, sem paralelos em nossa cultura popular.

Niterói, janeiro de 2013
Rodolfo Barcellos

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Augúrios de Inocência, 1-5

     William Blake foi um poeta visionário inglês, também pintor e tipógrafo, que viveu entre 1757 e 1827 - época do Iluminismo europeu e da Revolução Industrial na Inglaterra. A Bia, minha filha, chamou-me a atenção para este poema, que é um grito de revolta e inconformismo contra as convenções sociais vigentes na época - principalmente quanto ao mau trato dos animais e à opressão das classes menos favorecidas. Muitas dessas "convenções" sobrevivem até hoje.
     Traduzi as cinco primeiras estrofes buscando preservar as rimas sem prejudicar o sentido e aproveitando a liberdade na métrica que existe no original. Pretendo ir traduzindo e publicando aqui, aos poucos, todas as 35 estrofes do poema.
Imagem: Wikipedia
Auguries of Innocence
1
To see a world in a grain of sand,
And a heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand,
And eternity in an hour.
Para ver um mundo em um grão de areia
E um paraíso numa flor do prado
Segure o infinito em uma mancheia
E numa só hora o tempo eternizado.
2
A robin redbreast in a cage
Puts all heaven in a rage.
Um sabiá-laranjeira na gaiola
Provoca nos céus uma fúria que assola.
3
A dove-house fill'd with doves and pigeons
Shudders hell thro' all its regions.
A dog starv'd at his master's gate
Predicts the ruin of the state.
Um pombal cheio de pombas e pombos
Deixa o inferno inteiro abalado
Um cão no portão do dono, magros lombos
Profetiza a ruína do Estado.
4
A horse misused upon the road
Calls to heaven for human blood.
Each outcry of the hunted hare
A fibre from the brain does tear.
Um cavalo sobrecarregado na estrada
Clama aos céus por sangue humano
Cada grito da lebre caçada
Rasga uma fibra do cérebro insano.

5
A skylark wounded in the wing,
A cherubim does cease to sing.
The game-cock clipt and arm'd for fight
Does the rising sun affright.
Uma cotovia de asa amarrada,
Um querubim que nunca mais canta.
O galo na rinha, espora armada,
Provoca terror ao Sol que levanta.


Niterói, janeiro de 2013
Rodolfo Barcellos