Durante alguns anos de minha meninice minha família residiu em Barbacena - MG, onde meu tio José prestava ocasionalmente seus serviços de clínico geral ao Manicômio que lá existia. Algumas recordações da época me assaltam de vez em quando; e uma delas é a agressão que sofri por parte de uma louca, supostamente inofensiva, quando voltava a pé da escola.
O episódio rendeu-me algumas contusões, um corte no lábio e uma cicatriz na alma. E quase sessenta anos depois rendeu também esta pequena crônica.
O tempo que nunca existiu não deixou saudades. Os sonhos nasceram mortos e foram enterrados no sopé da colina azul. O vento aqui não sopra. Nuvens imóveis escondem um sol negro, e os segundos estão esculpidos na face cinzenta e fria da eternidade.
O crepúsculo não chegará. Não há flores ou frutos. Não há ódio, pois não há amor. Não há tristeza, pois não há alegria. Não há morte... não há vida. E nos mares sombrios desse tempo inexistente vagueia sem rumo a nau do esquecimento, sobrecarregada de pesados nadas. Naufrágio eterno de um espectro que se perdeu de si mesmo.
Os olhos cegos do timoneiro desmemoriado estão abertos e fixos num horizonte vazio. Em sua boca mora o sussurro rouco de uma canção sem palavras, que ecoa surdamente no cavername dos porões inundados.
A bússola gira loucamente, em busca de um Norte que não existe. Pendem das vergas farrapos cansados, retalhos imóveis sob o peso do silêncio. E o tempo está congelado em ondas perpétuas de escuridão.
O episódio rendeu-me algumas contusões, um corte no lábio e uma cicatriz na alma. E quase sessenta anos depois rendeu também esta pequena crônica.
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| Imagem: monteolimpoblog.blogspot.com |
O crepúsculo não chegará. Não há flores ou frutos. Não há ódio, pois não há amor. Não há tristeza, pois não há alegria. Não há morte... não há vida. E nos mares sombrios desse tempo inexistente vagueia sem rumo a nau do esquecimento, sobrecarregada de pesados nadas. Naufrágio eterno de um espectro que se perdeu de si mesmo.
Os olhos cegos do timoneiro desmemoriado estão abertos e fixos num horizonte vazio. Em sua boca mora o sussurro rouco de uma canção sem palavras, que ecoa surdamente no cavername dos porões inundados.
A bússola gira loucamente, em busca de um Norte que não existe. Pendem das vergas farrapos cansados, retalhos imóveis sob o peso do silêncio. E o tempo está congelado em ondas perpétuas de escuridão.
Loucura.
Abril de 2012
Rodolfo Barcellos



