A noite possui belezas
Que a luz do dia esconde;
E guarda minhas tristezas
Numa estrela, não sei onde.
A noite contém silêncios
Que só se ouvem no escuro;
Os sons não escutes: pense-os,
Pois eles vêm do futuro.
A noite mostra pecados
Que se ocultam de dia
E traz-me os teus recados
Na luz de uma lua fria.
A noite canta cantigas;
Algumas são acalantos
Outras são trovas antigas,
São risos, olhares e prantos.
A noite escreve palavras
Com escrita tão serena
Como aquelas que tu lavras
No papel, com tua pena.
A noite escuta juras
Em segredo proferidas
Pelas vielas escuras
Por tantas almas perdidas.
A noite esconde mistérios
Que só encontram guarida
Nos seus espaços etéreos
Entre as neblinas da vida.
A noite compõe canções
Onde as estrelas são rimas,
Versos são constelações,
Galáxias são obras-primas.
A noite liberta os sonhos
Que de dia estão cativos;
E eles voam, risonhos,
Como pensamentos vivos.
A noite alimenta a alma
Sacia a sede de amor;
A ansiedade acalma,
Cala qualquer dissabor.
A noite conduz o amante
Aos braços da bem-amada;
E é companheira constante
Da alma enamorada.
O sol nunca viu a noite;
Pois quando ele o céu invade
Vem o dia, e o dia é açoite
Do olvido e da saudade.
Vem, noite! Traz-me o momento
Do sonho-realidade,
Da verdade-fingimento,
Da escravidão-liberdade!
Traz-me algum abraço amigo,
Um carinho verdadeiro;
Traz-me aquele amor antigo
Ou um novo amor fagueiro;
Dá-me abrigo e tugúrio
Contra as ciladas do dia;
Diz-me num doce murmúrio,
Como ela me diria,
Que tu és a confidente
Dos segredos mais sagrados;
És cúmplice e conivente
Dos amantes namorados.
E em tua hora derradeira,
Ao romper da alvorada,
Eu te amarei por inteira
Nos braços de minha amada.
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