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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Guardião Cativo



Naquelas noites calmas de céu cintilante,
Decerto tu não sabes, mas quando adormeces
Serenamente, logo após as tuas preces,
Um leve vulto se aproxima, hesitante.

Qual anjo protetor, atento e vigilante,
Ao pé de ti, quieto, depõe suas benesses,
Os novos sonhos que ainda não conheces,
Para alimento de teu sono confiante.

Esse anjo mudo, amada minha, é meu zelo
Afugentando qualquer triste pesadelo
Que te perturbe a alma enquanto estás dormindo;

Que junto a ti tresnoita, neste forte anelo
De atender de pronto a qualquer teu apelo
Só por ganhar-te este sorriso doce e lindo!

Niterói, janeiro de 2012
Rodolfo Barcellos

sábado, 21 de maio de 2011

Celebração e Epitáfio


"Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei" - (Álvaro de Campos, "Noite Terrível")
Citado por Regina Rozembaum em comentário a "Ode à Noite"


- Canto I -


Aqui não jazem meus sonhos,
Só meus ossos aqui estão;
E se teus olhos tristonhos
Fecharem-se em oração,
Que seja pela memória
De tantos sonhos que tive;
Que seja pela vitória
Daquele que em ti revive.


Não jazem aqui meus sonhos,
Só meus ossos, feitos pó.
Sejam teus votos tamanhos
Pelos meus sonhos, tão só.
Sejam por velhos amores
Que me deram tanta vida,
Pelo perfume das flores,
Pela alegria esquecida.


- Canto II -


Meus sonhos aqui não dormem,
Meus ossos dormem aqui;
Uns e outros já não sofrem
As agruras que vivi.
Meus sonhos sobreviveram,
Alguns se cristalizaram;
Uns poucos se enfraqueceram,
Mas tantos outros vingaram.


Aqui sonhos não se deitam;
Alguns ossos jazem, sim.
Os sonhos nunca rejeitam
A luz da vida, enfim.
Vários já se transformaram
Em realidade patente.
Outros se multiplicaram,
Unindo já tanta gente...


- Canto III -


Meus sonhos estão nos filhos,
Meus ossos estão na terra;
Meus sonhos são andarilhos 
Que cripta alguma encerra.
Muitos foram para os ninhos,
Junto aos sonhos e afetos
De meus primos, meus sobrinhos,
Amigos, irmãos e netos...


Aqui meus ossos descansam,
Mas sonhos não há aqui;
Meus sonhos agora dançam
Em mil versos por aí,
A tantas musas amadas,
E àquela que me amou;
A tantas bocas beijadas,
E à alma que me falou.


- Canto IV -


Aos ossos, um epitáfio,
Aos sonhos, celebração.
O sofrimento, abafe-o;
Versos, cante-os com paixão.
Sim! Meus sonhos estão vivos,
Nas vidas de quem me amou,
Dos que me foram cativos
E de quem me cativou.


Sob esta lápide há ossos,
Não busques sonhos aqui.
Meus sonhos, que já são nossos,
Acham-se dentro de ti;
Espalha-os pelo mundo,
Semeia-os nos caminhos,
Dá-lhes teu amor profundo,
Cuida deles com carinhos.


- Canto V -


Os sonhos só são vividos,
Há muito eu percebi,
Quando eles são compartidos,
E a todos comparti.
Não levo nenhum comigo;
Não cabem neste jazigo.
E portanto, meu amigo,
Não percas teu tempo aqui.


Busca partilhar teus sonhos,
Generoso tenta seres,
Perdulário, se quiseres;
Lega a homens e mulheres
Os teus anseios risonhos,
Antes que a vez toque a ti;
Pois aqui não dormem sonhos.
Só ossos jazem aqui.