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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Errata




E tanto amor foi pelas noites derramado
Que passamos juntos sem nem as ver passar
E cada beijo que entre nós dois foi trocado
Já foi perdido antes mesmo de se achar

E o tempo foi passando, e nós não percebemos
E na rotina morna apagou-se a paixão
Onde será que nós os dois nos esquecemos
De cultivá-la fundo em nosso coração?

Na página de fecho desse velho amor
Que a vida sufocou sem dó nem piedade
Lê-se hoje a errata triste, em tom frio:

Onde estiver "carícia" troque-se por "dor"
Onde se escreve "noites" leia-se "saudade"
Onde se lê "beijos" entenda-se "vazio"...

Niterói, outubro de 2012
Rodolfo Barcellos

segunda-feira, 19 de março de 2012

Equinócio

     Parabéns, artesão! Parabéns, marceneiro e carpinteiro! Parabéns aos pupilos de José, o pai de família por excelência, cuja celebração acontece hoje, dia 19!
*   *   *   *   *
     Às 02:14 deste dia 20 de março, horário brasileiro, o Sol se transfere com armas e bagagens para o hemisfério norte do planeta, deixando-nos o outono e levando a primavera a Portugal e seus vizinhos.
     É o dia do equinócio - o dia em que fadas e duendes festejam com os elfos e as flores. O dia em que luzes coloridas dançam em um certo lugar escondido na floresta da Tijuca. O dia em que a luz e a escuridão se distribuem com imparcial igualdade - doze horas de cada - entre todos os povos do mundo, e nos dois polos do planeta o sol passeia em círculo por todos os pontos do horizonte.
     Felizes dias de primavera para os povos acima do equador. E doces tempos de outono para nós e nossos vizinhos... pois tudo é motivo para poesia.
Imagem: Wikipedia
Eis que acontece o instante mágico no mundo
No qual o dia pela Terra se reparte
Em iguais horas com a noite, e destarte
Às raças todas distribui cada segundo.

É o equinócio, quando o eixo do planeta
Angula reto com a linha que o une
Ao mesmo Sol que acima do equador reúne
Seus raios verticais, brilhantes como seta.

Pudessem homens e mulheres sobre a Terra
Compartilhar tão irmãmente a riqueza
Assim como hoje partilhamos noite e dia;

Pois o equinócio é o exemplo que hoje encerra
O Astro-rei, em sua bruta natureza,
Doando a todos, por igual, sua magia.

Niterói, março de 2012
Rodolfo Barcellos

quinta-feira, 8 de março de 2012

Plenilúnio

Quando pesquisei, em fins de janeiro, datas e horários das fases da lua para esta série de sonetos, não me dei conta de que o último cairia numa data muito especial. Foi a Denise quem chamou a atenção deste velho poeta distraído para a coincidência.
Coincidência? Não acredito em coincidências (pero que las hay...). Não, estava escrito nas estrelas, desde sempre, que esta série de sonetos teria sua chave de ouro neste Dia Internacional da Mulher.
Hoje, portanto, quero dedicar os quatro sonetos da série a essas criaturas maravilhosas pelas quais nós, homens, nascemos e vivemos - e muitas vezes morremos, ao menos de amor. Parabéns às minhas Deusas amadas, às minhas queridas Musas, às Graças da minha vida e a todas as mulheres do planeta, que fazem deste mundo um lugar em que - ainda - vale a pena se viver.
Origem: Internet
A lua em plenilúnio anuncia aos ares:
És minha! À luz da Deusa e de suas donzelas,
Que no céu contam-se em miríades de estrelas,
Ser teu eu juro enquanto tu também me amares.

E não faremos conta de afagos e beijos,
Não pouparemos nunca abraços nem carinhos;
Seremos perdulários e jamais mesquinhos,
Satisfaremos nossos mútuos desejos.

Porque de amores já vividos aprendemos
Que a eles nunca poderemos traçar meta,
Regra, fronteira ou limite. Isso sabemos.

Sabemos que é mortal, mesmo sendo gigante,
Mas seguiremos o conselho do Poeta
E o faremos infinito - até o minguante!


Niterói, 8 de março de 2012
às 6:39 h (lua cheia)
Rodolfo Barcellos


Esta postagem encerra o ciclo de quatro sonetos relativos às fases lunares e seus paralelos com o amor. Cada soneto foi postado nos dias e horas correspondentes às efemérides astronômicas das fases lunares. Os outros três sonetos da série estão em:
Minguante: http://seteramos.blogspot.com/2012/02/minguante.html
Nova: http://seteramos.blogspot.com/2012/02/nova.html
Crescente: http://seteramos.blogspot.com/2012/02/crescente.html


Sou grato aos amigos que me incentivaram nessa empreitada poética. E mais uma vez, deixo minha homenagem às mulheres de todo o mundo, agradecendo a "trombetada" da Denise e transcrevendo o comentário que deixei ontem na Marcia:



Hoje canto a Mulher,
O anjo, a guerreira, a fada,
O bem-me-quer, mal-me-quer,
O beijo, a flor, a estrada!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Crescente


Internet
A cada noite mais o céu se ilumina,
E esmaece nesse brilho o cintilar
Dessas saudades de um sorriso de menina,
Dessas lembranças de um antigo e doce amar.

Pois quando vejo o teu sorriso que fascina
Cresce em meu peito uma esquecida sensação
Que, em cascatas de calor, de adrenalina,
Rejuvenesce um combalido coração.

E nesta luz que me ilumina toda a alma
Quero cantar sem ter qualquer cuidado ou calma,
Sem mais razões, explicações, sem hesitar;

E num crescendo majestoso a melodia
Do nosso amor fará a grande poesia,
À luz crescente em prata do nosso luar.

Niterói, 29 de fevereiro de 2012
às 22:21 h (lua crescente)
Rodolfo Barcellos


Este é o terceiro de uma série de quatro sonetos temáticos, programados para publicação nas datas e horas em que mudam as fases da lua, de acordo com as tabelas de efemérides astronômicas. O tema é o paralelismo poético entre as diferentes fases da lua e as do amor. 
Próxima postagem desta série: PLENILÚNIO
Em 08 de março, às 06:39


Postagens anteriores:


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Nova


Em plena escuridão está envolto o mundo.
Fugiu do céu a lua, e tu também de mim.
Brilham mil diamantes no espaço profundo,
Lembranças de momentos que tiveram fim.

Mas eis que lentamente, acima do horizonte,
Nasce um sorriso leve, uma foice de luz,
Trazendo-me esperanças de uma nova fonte
De carinho que afaga, de amor que seduz.

Mas inda luzem fortes, no meu firmamento,
Saudades e lembranças do amor antigo,
Dores que não se vão em tão curto momento;

E entre a luz passada e a que inda é futura,
Entre o refúgio novo e o costumeiro abrigo,
Meu coração hesita nesta fase escura.


Niterói, 21 de fevereiro de 2012
às 20:34 h (lua nova)
Rodolfo Barcellos


Próxima postagem desta série: CRESCENTE
Em 29 de fevereiro às 22:21 h

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Minguante


Onde a paixão? Onde estará, insano e ardente,
Aquele amor que incendiava cada noite?
Foi-me o desejo. A ânsia louca também foi-te;
Em cinzas frias fez-se a brasa antes candente.

Se bem nos reste ainda um aconchego morno,
Não sobreviverá ao fim do nosso estio;
Não nos dará calor quando chegar o frio,
Ao extinguir-se o lenho último do forno.

E vai minguando o amor, o encanto e a magia.
Não mais os nossos corpos, em mútua poesia,
Entoarão o canto do febril desejo.

Cada lembrança doce virará saudade.
Talvez nos reste ao fim alguma amizade,
Talvez o nosso adeus sequer mereça um beijo.

Niterói, 14 de fevereiro de 2012
às 15:03 horas (lua minguante)
Rodolfo Barcellos


Próxima postagem desta série: NOVA
Em 21 de fevereiro, às 20:34

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Guardião Cativo



Naquelas noites calmas de céu cintilante,
Decerto tu não sabes, mas quando adormeces
Serenamente, logo após as tuas preces,
Um leve vulto se aproxima, hesitante.

Qual anjo protetor, atento e vigilante,
Ao pé de ti, quieto, depõe suas benesses,
Os novos sonhos que ainda não conheces,
Para alimento de teu sono confiante.

Esse anjo mudo, amada minha, é meu zelo
Afugentando qualquer triste pesadelo
Que te perturbe a alma enquanto estás dormindo;

Que junto a ti tresnoita, neste forte anelo
De atender de pronto a qualquer teu apelo
Só por ganhar-te este sorriso doce e lindo!

Niterói, janeiro de 2012
Rodolfo Barcellos

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Sem Verbos


     De onde?

     De um desafio antigo

     De um soneto empacado

     De um bate-papo amigo,

     De um coração namorado.

SONETO SEM VERBOS

Um soneto sem verbos - desafio
De um amigo mais da onça do que meu;
Uma quadra, talvez, só por desfastio...
Talvez não ... e um tchau do amigo teu;

Mas rendição nunca! que vergonha!
Nunca a derrota! A fuga, não!
Covarde! Temeroso! Vil pamonha!
A um poeta, tais epítetos ao chão!

Calíope! Euterpe! Clio! Erato!
Ágil Terpsícore! Musas belas!
Doadoras de luz, de aquarelas!

Socorro! Sus ao poeta, ao insensato,
Ao campeão vosso, ao vosso amor,
De um soneto sem verbos fazedor!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Ao Mestre

- Quatrocentos e trinta anos atrás, Camões cerrava definitivamente o único olho que a guerra lhe deixara, abandonando o mundo corriqueiro dos homens mortais para ingressar no Elíseo luminoso dos vates eternos. Sua vida conturbada de boêmio aventureiro, por vezes fugitivo da justiça, terminara.
- Em 1556, regressando de Goa, - onde fora responder a inqúerito - naufraga na foz do Mekong. Consegue salvar o manuscrito dos Lusíadas, mas sua amante-escrava chinesa Dinamene perece nas ondas revoltas. Nasce daí um dos mais belos sonetos do Mestre:

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

- Camões também curtia as redondilhas, principalmente quando glosava os motes (ou motos) que os amigos lhe propunham em desafio. E volta e meia versejava em espanhol:

MOTE
Ojos, herido me habéis,
acabad ya de matarme;
mas, muerto, volve á mirarme,
por que me resucitéis.

GLOSA
Pues me distes tal herida,
con gana de darme muerte,
el morir me es dulce suerte,
pues con morir me dais vida.


Ojos, ¿qué os detenéis?
Acabad ya de matarme;
mas muerto volved á mirarme,
por que me resucitéis.


La llaga cierto ya es mía,
aunque, ojos, vos no queráis;
mas si la muerte me dais,
el morir me es alegría.


Y así digo que acabéis,
ojos, ya de matarme;
mas muerto, volved á mirarme,
por que me resucitéis.

- Fica aqui minha homenagem ao grande vate.