- Quatrocentos e trinta anos atrás, Camões cerrava definitivamente o único olho que a guerra lhe deixara, abandonando o mundo corriqueiro dos homens mortais para ingressar no Elíseo luminoso dos vates eternos. Sua vida conturbada de boêmio aventureiro, por vezes fugitivo da justiça, terminara.
- Em 1556, regressando de Goa, - onde fora responder a inqúerito - naufraga na foz do Mekong. Consegue salvar o manuscrito dos Lusíadas, mas sua amante-escrava chinesa Dinamene perece nas ondas revoltas. Nasce daí um dos mais belos sonetos do Mestre:
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
- Camões também curtia as redondilhas, principalmente quando glosava os motes (ou motos) que os amigos lhe propunham em desafio. E volta e meia versejava em espanhol:
MOTE
Ojos, herido me habéis,
acabad ya de matarme;
mas, muerto, volve á mirarme,
por que me resucitéis.
GLOSA
Pues me distes tal herida,
con gana de darme muerte,
el morir me es dulce suerte,
pues con morir me dais vida.
Ojos, ¿qué os detenéis?
Acabad ya de matarme;
mas muerto volved á mirarme,
por que me resucitéis.
La llaga cierto ya es mía,
aunque, ojos, vos no queráis;
mas si la muerte me dais,
el morir me es alegría.
Y así digo que acabéis,
ojos, ya de matarme;
mas muerto, volved á mirarme,
por que me resucitéis.
- Fica aqui minha homenagem ao grande vate.