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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Origens

     Antes de prosseguir com esta série natalina, permitam-me dar a nossa amiga Marcia os parabéns pelo transcurso de seu natal particular (ontem):



Quando o Arqueiro escolhe bem em sua aljava
Dentre tão belas, a mais perfeita seta,
A de pluma mais alva, a de haste mais reta,
E tange o arco forte, lançando-a ao ar,

Não creias que seu tiro outro alvo visava
Senão o coração da musa predileta,
Aquela que em versos canta este poeta,
A que em oceanos faz o seu pensar.

E acertará a flecha o ponto desejado?
Sim! Ei-la que fulge ao Sol, e em vôo acelerado
Vai mergulhar nos pensamentos desse mar;

Pois hoje, estando Apolo em pleno Sagitário,
Recebe, Marcia, estas flores de Aquário,
Porque hoje é teu dia! Vamos festejar!
*  *  *  *  *

     As festividades natalinas têm,   basicamente, duas origens principais, mais ou menos como um rio formado pela junção de dois afluentes, ou formadores: as fontes cristãs e as fontes pagãs. As cristãs são facilmente identificáveis: são os evangelhos canônicos de Lucas e Mateus e as profecias judaicas sobre a vinda do Messias. Já as raízes pagãs são muito mais diversificadas e multiformes. A maioria destas vem direta ou indiretamente dos milenares festivais do Solstício.
     Mas como se originaram estes rituais antiquíssimos? E o que, exatamente, é o Solstício?
     No dia 21 de Dezembro o Sol, na sua marcha aparente pelo céu, passará exatamente a pino, na vertical do trópico de Capricórnio, vindo do norte. É o limite máximo da excursão solar rumo ao Sul: após deslizar sobre o trópico, o Sol volta a se afastar lentamente, em busca das paragens do Norte.
     Os solstícios assinalam o início dos invernos e dos verões. E na velha Europa, berço da cultura ocidental, gelada e escura no outono, o Solstício de Inverno sempre foi festejado como o momento em que o Sol moribundo, perdido nos confins do meridião, começa a se reerguer no céu.
     Sim, ainda passarão semanas antes que o astro-rei tenha forças para vencer o frio e as trevas, mas cada dia que passa é mais longo e mais claro que o anterior, reacendendo as esperanças de colheitas próximas e abundantes. Não admira que as antigas comemorações pagãs de dezembro tenham se espalhado pela Europa e, incorporadas às festas cristãs, chegado às colônias, mesmo ao sul do Equador, perpetuando tradições que são no mínimo estranhas nesta época, para nós, de calor.
     Que o digam os papais-noéis em suas roupas quentes, os pedacinhos de algodão ou isopor imitando neve nos presépios e árvores de Natal, a preferência por pinheiros para a árvore, o conteúdo altamente calórico da Ceia de Natal, o hábito de consumir nozes, avelãs, amêndoas - frutos caducos secos, os únicos que estavam disponíveis nos invernos europeus de séculos passados... a lista não tem fim.
     Muitos desses costumes vieram das festividades pagãs e foram absorvidos pelo Cristianismo - alguns por um processo natural de sincretismo, outros por  ação intencional da autoridade eclesiástica. Vejamos alguns exemplos:
 


     A Saturnália era uma festividade romana dedicada a Saturno. Era celebrada entre 17 e 23 de Dezembro. Os rituais incluíam  grandes banquetes, sacrifícios, às vezes orgias. Durante os festejos a própria ordem social era subvertida: os escravos adquiriam temporariamente a liberdade e como homens livres se comportavam; sorteavam entre si um "princeps" - uma espécie de caricatura da classe nobre - ao qual entregavam todo o poder.
     Mas prevalecia sempre o caráter religioso da festa.  O "princeps" geralmente usava uma máscara e trajava uma capa ou manto vermelho (a cor dos deuses), personificando Saturno ou Plutão - os senhores dos infernos - para conjurá-los a se recolherem a seu mundo subterrâneo, permitindo a volta do Sol.
     No século III, a unificação religiosa do imenso Império Romano tornara-se uma necessidade premente. Era impossível evitar conflitos entre inúmeros povos de origens, culturas e religiões diversas. Esse processo iniciou-se por volta de 200 d.C., com Heliogabalo e sua tentativa fracassada de instituir um culto artificial ao Sol Invictus (que mais tarde fundiu-se com o Mitraísmo). Aureliano conseguiu restaurar o culto, com um caráter mais ecumênico, em 270 d.C.;  e o processo culminou com Constantino, que elegeu o Cristianismo como padrão - exatamente por seu caráter universalista.
     Mesmo assim, Constantino teve que permitir que vários costumes pagãos fossem incorporados às festividades cristãs, para poder proibir, sem muitos protestos, a Saturnália e outras manifestações semelhantes.
     O Mitraísmo teve um papel aglutinador muito forte, pois era o culto preferido nas legiões romanas. E 25 de Dezembro era o dia em que se celebrava o nascimento de Mitra. Não se sabendo com certeza a data exata do nascimento de Jesus, a opção mais viável foi celebrar o Natal na mesma data, para facilitar a absorção do Mitraísmo pelo Cristianismo. Em

http://jeocaz.wordpress.com/2009/02/26/a-origem-do-natal/
ficamos sabendo que os rituais dos celtas também tiveram influência nas festividades cristãs, quando de sua absorção pelos Romanos, por volta de 400 d.C. Nas ilhas Britânicas, as festas do Solstício eram celebradas pelos druidas em Stonehenge e outros circos megalíticos, que marcavam a trajetória do Sol ao longo do ano. O Imbolc era celebrado no dia 1º de fevereiro; o Samhain, festa dos mortos, em 1º de novembro. Aos celtas devemos, também, em boa parte, a nossa árvore de Natal, costume derivado dos rituais druidas referentes às árvores sagradas.
     Na Mesopotâmia, as comemorações da volta dos dias longos a partir do Solstício de Inverno, eram celebradas durante doze dias. O mesmo Solstício relembrava no Egito antigo, a passagem do deus Osíris para o mundo dos mortos. Na Grécia o Solstício marcava o culto a Dioniso, deus do vinho e da embriaguez.
     Ainda hoje, é possível notar o caráter universal e ecumênico da festa. Embora os fiéis mais espiritualistas condenem essas manifestações exteriores, foram elas que permitiram a expansão vertiginosa do Cristianismo na Idade Média.
     E mais uma vez, permitam-me desejar a todos - cristãos ou não, crentes ou agnósticos um...
... Feliz Natal!



Próximo artigo desta série: A estrela - 10/12.