sexta-feira, 4 de março de 2016

A calça

Quando o Rafa foi me visitar no Hospital Central da Aeronáutica, foi impedido de entrar.
- Não pode entrar de bermuda - o soldado da guarda explicou.
Não vou criticar aqui costumes culturais, por mais estranhos que pareçam. Os militares britânicos usam, nas regiões tropicais, um uniforme leve, que inclui uma bermuda. Nós, brasileiros, mais realistas do que o rei, implicamos com um traje confortável, aceito até no palácio de Buckingham, só porque nossos avós não gostavam de expor as canelas.
E agora? O Rafa não vinha para uma simples visita, mas para render por algumas horas a minha filha - a Bia - em seu posto de acompanhante. Lembrou-se de ter passado por uma loja de roupas femininas nas proximidades e foi até lá, para comprar um traje mais adequado.
O Rafa é um homem grande e desinibido, e foi com dificuldade que se apertou na maior calça que encontrou na loja. E foi assim, com brilhos nos fundilhos e enfeites na cintura, que ele conseguiu entrar no ultraconservador hospital...

Mudando de assunto, quero aproveitar a oportunidade para agradecer a todos os amigos que estão me apoiando nesta fase difícil. Fui diagnosticado como portador de um tumor maligno  - avançado mas primário - no esôfago e por conta da dificuldade de deglutir estou recebendo nutrição via enteral - diretamente no intestino delgado. Quando recuperar-me da desnutrição, iniciarei um tratamento mais pesado - quimio e radioterapia, e se necessário cirurgia.

Obrigado pelas mensagens. Obrigado, Denise, Milene, Regina e tantos outros amigos. Obrigado, Rafa, Gerusa, Branca, Marcos e tantos outros parentes. Obrigado...

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Ô de Casa!



A porta destrancada – deste cantinho e de seu coração – deixou-nos entrar sorrateiramente trazendo na bagagem algumas palavras que pretendem te homenagear, e imagens para colorir a saudade e enfeitar teu dia, precioso para nós que te amamos.

Perdoe-nos a invasão, muito embora estejamos alojadas na sagrada memória afetiva e esta sala de estar com os amigos seja uma extensão de nossas recordações, também queridas.

Desejamos estreitar nos braços da amizade nosso desejo de que este tenha sido um ano bom, deixando lugar para a renovação das alegrias, da saúde, da esperança, das rimas que você faz, inspirando-nos, enquanto provoca um brinde às letras que tão bem distribui para assim representar o afeto que sente.

Por ser você essa fonte inesgotável de sabedoria, representante fiel dos sentimentos ocultos ou escancarados, nossa gratidão por compartilhar sua alma de poeta, sua singularidade humana, seu olhar brejeiro sobre as coisas e seu riso maroto que não esconde o menino a viver neste corpo de homem com olhos de contas azuis...

Escrever para quem tem a intimidade com as palavras como você, Mago querido, nos mostra como é vã a tentativa de expressarmos tudo que sentimos, por isso fica aqui nosso singelo – porque amoroso – ensaio, e as melhores energias para te envolverem como nossos braços a te embalarem num afetuoso abraço cantando um sonoro PARABÉNS PRA VOCÊ, nesta data festiva, muitas, inúmeras felicidades e muita vida para viver!!!



Recordações de momentos lindos!!


O SONETO NÃO PARIDO

Era pra parir um soneto, daqueles corretos em métrica e rima, mas sobretudo cheio da mais legítima e profunda poesia. Não se deu. O mestre vai nos desculpar. Saberemos lhe dizer afetos sem versos, mas afetos. Diremos da saudade de nossa convivência que, mesmo acontecendo sobre a ponte virtual, era das mais intensas e enriquecedoras. Era bonita... era bonita!

Tal escrita não é somente sobre a saudade, essa que a vida se encarregou de parir sabe-se lá por quais motivos. Trata-se, pois, da belezura desse treze de fevereiro que lá atrás pariu Rodolfo, o Barcellos, o bruxo e mestre das letras, cuidador de versos, jardineiro tão dedicado como pouco se ouviu falar nos ares por onde voou ou nos mares do seu lugar.

Rodolfo, o bruxo, cuidador de versos, canteiros e amizades. Sujeito ímpar a querer proteger a quem ama no seu abraço farto, humano, de tanto amor. Sujeito grande, que seria gigante mesmo tendo meio metro de altura. É da grandeza de ser o tratado aqui. É da alma, da bem querência, da generosidade, do imenso sentimento ajeitado ali, no seu coração doce.

É de se sonhar outro abraço daqueles, um pouco mais do choro da despedida, como foi feito naquele julho de outro ano, lá em Maceió, onde “ama-se e, oh!”. É de se querer mais conversas e aprendizados. E outras arengas, porque amigo que é amigo arenga e pronto, pra depois o bem querer se ajeitar melhor e assoprar pra longe os ventos mal intencionados.

Se não foi lhe dito um soneto de aniversário, gratidão e amizade, ao menos se tentou dizer palavras livres e muitas de aniversário, de gratidão, de amizade...
Brindemos à vida, ao bruxo, o amigo.
Viva Rodolfo Barcellos, viva!


(Por Denise e Milene, as meninas dele)




Vídeo caseiro, cliquem nele para abrir.
E você Rodolfo Poeta, Bruxo, Mago querido, tire esse cisco dos olhos, por favor... ;)

... saindo de fininho, puxando devagar a porta pra não te acordar... 



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Irrealidade


Há mundos, poetisa minha
Que existem intocados
Mas só por nós visitados,
Neblinas.

Mundos que estão escondidos
Feitos de espaços perdidos
Pó de tempos esquecidos,
Sombras.

São lembranças esmaecidas
Memórias mal revividas
Fotos amarelecidas,
Saudades.

São céus verdes como mares
Nuvens azuis pelos ares
Frutos brancos nos pomares,
Loucuras.

Lá onde o tempo se finda
O espaço nasce ainda
Na espera de tua vinda,
Poesias.

Lá eu me deito em teu colo
Lá eu me planto em teu solo
Lá eu bebo tua paz,
Sonhos.

Existem lá mil verdades,
Mentiras, versos tristonhos,
Neblinas, sombras, saudades,
Loucuras, poesias, sonhos.

E nesse tempo imanente
Perdido e reencontrado
Tu viverás teu presente,
Teu futuro e teu passado.

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Caros amigos,
Nas próximas duas semanas estarei internado no HCA para tratamento de um transtorno alimentar. Durante esse período, não poderei postar, comentar ou responder aos comentários, mas pretendo voltar o mais breve possível.
(agora eu sei a razão de ser chamado de "paciente"...)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Uma de menos

     O tempo escorre lentamente do relógio, em tiquetaques preguiçosos e vadios. É o velho demônio irritante, tirando do saco de minha vida, já meio murcho, uma moeda a cada tique e atirando-a no saco sem fundo da eternidade a cada taque. E ele faz isso sorrindo, sarcástico, para mim. Uma de menos... uma de menos... uma de menos... vai ele desfiando a ladainha dos segundos que se perdem sem resgate.
     Mas hoje, demônio velho, não cairei nesse truque psicológico barato. Não ligarei a TV, não lerei livros ou jornais, não telefonarei para ninguém. Porque sei que ela, a minha amada, está vindo.
     Desfia a tua ladainha, velho demônio, desfia-a mais rápido, que os segundos da espera não se contam como aqueles da tristeza. E quando minha amada estiver em meus braços, será minha vez de contar: uma a mais, uma a mais, uma a mais...
     Pois dela os beijos são vida, e os carinhos são eternidade, e seu amor não cabe neste ridículo universo onde espaço e tempo têm seus limites. Ela me levará nas asas da paixão e me guiará para onde não se contam moedas, onde não há sacos de diferentes tamanhos, onde os demônios contadores se encolhem envergonhados e perecem à míngua de relógios, onde tempo não é dinheiro e dinheiro não é mais que fumaça. E lá escarneceremos de ti, até o fim dos tempos.

domingo, 27 de dezembro de 2015

ACALANTO PARA BIA


Naquelas noites calmas de céu cintilante,
Decerto tu não sabes, mas quando adormeces
Serenamente, logo após as tuas preces,
Um leve vulto se aproxima, hesitante. 

Qual anjo protetor, atento e vigilante,
Ao pé de ti, quieto, depõe suas benesses,
Os novos sonhos que ainda não conheces,
Para alimento de tua alma confiante. 

Este anjo mudo, amada minha, é meu zelo
Que afugenta qualquer triste pesadelo
Que te perturbe o sonho enquanto estás dormindo; 

Que junto a ti tresnoita, neste forte anelo
De atender de pronto a qualquer teu apelo
Só por ganhar-te esse sorriso doce e lindo!

 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Natal - a data


Crônicas natalinas - A data


Eventos como o Natal deveriam ser celebrados diariamente, não importando o que diga a folhinha – se não com luzes, presentes e ceias, pelo menos com o coração.

Dito o importante, vamos ao interessante.

Setembro, Outubro, Novembro, Dezembro: sete, oito, nove, dez.

Não parece estranho que os meses de nove a doze tenham nomes de sete a dez?

Essa confusão tem mais de dois mil anos de idade. O calendário romano daquela época compunha-se de dez meses – quatro nomeados em honra a deuses e os demais simplesmente chamados pelos seus números: Martius, Abrilis, Maius, Junius. Quintilis, Sextilis, Septembris, Octobris, Novembris e Decembris.

Ano sim, ano não, um mês extra – Mercedonius – era incluído. O resultado era uma sequência irregular de anos com 355, 377 ou 378 dias cada um.

Em 46 AC Júlio César resolveu acabar com a bagunça e, com a assessoria do astrônomo Sosígenes, instituiu o calendário hoje conhecido como Juliano. Ele acrescentou mais dois meses – Unodecembris e Duodecembris – e eliminou o mês intercalar (Mercedonius), substituindo-o por um único dia que seria acrescentado a cada três anos ao último mês – Duodecembris, o famoso ante die bis sextum kalendas martias.

Mas havia erros acumulados a ajustar, e por conta deles aquele ano acabou durando 445 dias. Com a confusão reinante, os romanos passaram a considerar Unodecembris e Duodecembris não como os últimos, mas como os primeiros do ano seguinte, dando-lhes nomes em honra de Janus – Januarius – e Febo – Februarius.

Em 44 a. C., o senado  homenageou Júlio César, trocando o nome do mês Quintilis para Julius. E sessenta anos depois César Augusto mudou o intervalo dos bissextos de três para quatro anos e recebeu a mesma homenagem, quando o mês Sextilis passou a se chamar Augustus – roubando um dia de Februarius para ficar com os mesmos 31 do ilustre antecessor... ô vaidade!

Mas o que isso tem a ver com o Natal?

Bem, naquela época ainda era grande a confusão no calendário. E os judeus seguiam um calendário próprio (que usam até hoje), sem relação com o calendário romano. E no meio da confusão, a data real do nascimento de Jesus perdeu-se – parece que definitivamente.

A data de 25 de dezembro foi adotada pela Igreja, já no século IV, para contrapor-se às festas pagãs do solstício de inverno, entre as quais a Saturnália romana e o festival do Sol Invictus..

Mas existem alguns indícios que permitem uma pesquisa sobre a data aproximada do evento. As fontes históricas mais confiáveis são os evangelhos canônicos de Lucas e Mateus, alguns textos dos apócrifos, os registros do Templo de Jerusalém e os escritos de Tácito, Plínio, o moço, Suetônio e Josefo.

E o que nos dizem essas fontes?

Jesus nasceu durante o reinado de Herodes, o Grande – o rei-fantoche designado pelos romanos, que ordenou a tristemente famosa "matança dos inocentes". Ora, Herodes morreu no ano 4 a.C., de modo que Jesus deve ter nascido uns dois ou três anos antes. E sabemos que José foi com Maria a Belém para cumprir a ordem da autoridade romana que exigia, para o censo, que o registro fosse feito na cidade de origem do chefe da família.

Em Belém, o censo ocorreu no mês Sextilis (posteriormente agosto) do ano 7 a. C.

Mais uma pista: a apresentação dos recém-nascidos no templo e a purificação de suas mães tinha um prazo máximo de 21 dias após o parto, pelas normas judaicas. Jesus foi apresentado no templo de Zacarias, segundo os registros locais, no mês de Setembro, num sábado. Ora, o mês de Setembro do ano 7 a.C. teve quatro sábados: 4, 11, 18 e 25. Como os censos em Belém ocorreram entre 10 e 24 de Agosto, o sábado de apresentação seria o de 11. E assim, Jesus teria nascido entre 21 e 30 de Agosto do ano 7 a.C.

Bem, espero vocês tenham apreciado, que o Leonel não tenha tido dores de cabeça e que o Jair não tenha ficado matutando demais em frente à folhinha – pois dito o interessante, voltemos agora ao importante:

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Quid pro quo

A Teoria dos Conjuntos fornece-nos bons esquemas para ilustrar áreas de convergência ou de conflito nos relacionamentos humanos. Veja a figura:
Não incluí outras religiões para não complicar. O amigo leitor poderá fazê-lo à vontade.
A Torá e o Talmude situam-se na área J. O Corão, na área I. O Novo Testamento, na área C.
Na área JC está o Velho Testamento. Textos sagrados, rituais e tradições têm seus lugares cativos neste esquema.
Esquemas semelhantes podem ser construídos. Exemplo:
NCR - Natureza, Ciência e Religião.
RS - Realidade e Sonho.

Gosto de imaginar esquemas e procurar meu próprio lugar dentro deles - seja como um ponto minúsculo ou como um círculo mais ou menos abrangente.
Talvez meus leitores se divirtam fazendo o mesmo.
Qual seria o lugar da Inquisição? da alma? da arte? do Estado Islâmico? da Filosofia? de Deus?