segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Belém X Natal

(Desafio de Viola, em 777)
Tom: Dó maior (C)
Desafiantes: Mano Velho e Velho Mano
Nota: esses nomes foram adotados por serem facilmente substituíveis por nomes e apelidos reais, com pequenas adaptações na métrica. A posição nos versos não interfere na rima.
Para detalhes sobre o 777, acesse o link 
http://seteramos.blogspot.com/2011/11/777.html
     Essa é uma tentativa de adaptar o 777 para "desafios de viola". E aproveitando a época, nada melhor que buscar no espírito natalino a inspiração dos sempre rivais e sempre amigos violeiros Velho Mano e Mano Velho...


VELHO MANO:
Mano Velho, vou cantar-te
A história de um menino
Que nasceu por obra e arte
De um milagre divino
Em Natal foi sua cama,
E é por isso que se chama
O período natalino.
MANO VELHO:
Velho Mano, tô sabendo
De uma história parecida;
Quando um milagre estupendo
Trouxe um menino à vida;
Mas o caso, eu sei bem,
Aconteceu em Belém,
A minha terra querida.
VELHO MANO:
O amigo está enganado,
Isso é fácil de notar;
Pois Natal é festejado
Té do outro lado do mar;
De lá vieram os Magos
Trazendo mimos e afagos
Para ao menino ofertar.
MANO VELHO:
Os Magos sabiam bem
Onde queriam chegar;
A estrela de Belém
Foi que mostrou o lugar
Por isso tem esse nome,
E do céu nunca mais some:
Lá está sempre a brilhar!
VELHO MANO:
Porque será que esta anta
Insiste em me desdizer?
Sempre que o sol se levanta
Natal é o primeiro a ver;
Porque iria o menino
Para seu berço divino
Outro lugar escolher?
MANO VELHO:
Olha aqui, cabra da peste,
Anta é sua vovozinha!
Se Natal é mais a leste,
Belém não fica sozinha;
Lá é a terra onde os poentes
Pintam nos céus cores quentes
Quando a tua é já noitinha.
AMBOS:
Que que é isso velho amigo?
Não há nenhum perdedor
Lá ou cá, eu sempre digo,
Aqui só tem vencedor
Vamos juntos todos nós
Louvar em uma só voz
Jesus Cristo, o Salvador!

     Como não sou musicista, simplifiquei ao máximo a composição melódica; e a representação abaixo deixa um pouco a desejar. Os profissionais da área darão seu veredicto.
     Cifra (simplificada):
          Mano velho, vou cantar-te
               C             G 
          A história de um menino
               G             C 
          Que nasceu por obra e arte
                 C              G
          De um milagre divino
                G         C
          Em Natal foi sua cama,
               C           D
          E é por isso que se chama
                  D           G
          O período natalino.
              G         C  
     Há inúmeras linhas melódicas que se encaixam nesse acompanhamento. De novo, deixo a quem entende do assunto a definição da mais adequada - incluindo as necessárias transposições; e para os diletantes (como eu), sugiro o máximo de simplicidade:
video
g-g-g-g-a-g-g-g
g-g-g-g-a-g-g-g
g-g-g-g-a-g-g-g
f-f-f-f-f-e-e-e
e-e-e-e-e-e-f-f
f-f-f-f-e-f-g-g
g-g-g-f-f-e-e-e


Nota: a música é idêntica em todas as estrofes.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A árvore

     Prosseguindo com esta série natalina, é a vez de abordarmos a Árvore de Natal; mas antes permitam que eu e alguns amigos prestemos homenagem a três pessoas que têm seu "natal" nesta data - ou próximo a ela: minha irmã Tania, nosso amigo Tatto e a saudosa D. Lucy, mãe de nossa querida Regina Rozembaum. E como o assunto é árvore,  pedi socorro à nossa sempre prestimosa amiga Graça, que se associou à homenagem, mandando-me estas obras-primas:


     Pois outros amigos nossos vieram se juntar à festa: a Milene, a Denise e a Regina me pegaram distraído no Messenger e após uma curta negociação, com seu poder de sedução feminina (enfatizado por ameaças subliminares de desprezo eterno) convenceram-me a servir um bolo feito pela Denise em homenagem ao Xipan-Tatto:
By Deny - com "pitacoria artística" dos demais participantes


     FALHA MINHA
     A Regina havia me mandado um e-mail com um texto homenageando o Tatto-Xipan, para ser publicado aqui. E eu não percebi!     Não vou ficar inventando meias-verdades ou procurando meias-mentiras para desculparem-me o indesculpável. Limito-me a pedir humildemente perdão aos amigos. E a remendar, como possível, este "post", inserindo tardiamente o belíssimo texto da Rê.
     Às vezes o homem Tatto, noutras o símio Xipán... O que importam os nomes? Pra mim é o Peludim mais amaaaado dessa sua Rêzininha da Grória. Essencial mesmo é a absoluta bem querência por este SER blogosfera a dentro. O homem, o Xipán, é mestre na arte de cativar, provocar risadas, agregar e propagar amizade. A generosidade é outra das suas fortes e lindas características. Basta sair por aí de galho em galho nessa imensa floresta virtual chamada blogosfera que é fácil encontrar sua marca enfeitando a casa de muita gente. Sempre criativo e solícito já criou coisas lindas para muitos de nós, não importa se chove ou faz um sol daqueles perfeitos pra uma breja... Ele não se nega a atender um pedido amigo. Na ânsia de retribuir um cadiquim do tantão que esse SER fabuloso doa, não houve alternativa a não ser me derramar em admiração e amizade, me socorrendo no clichê mais oportuno e verdadeiro: AMOTE Tatto, Xipán Zeca, Peludim!
FELIZ NATAL!
     Segure aí um cadiquim dos meus desejos procê, porque se fosse tudim da bem querência que te tenho, num caberia aqui não:
UMA FLORESTA INTENSA
UMAS BREJAS GELADAS
UMA CHICA PROCÊ CHAMAR DE SUAVIDA... PRA SER VIVIDAMENTE VIVIDA COM SAÚDE E ALEGRIAS.
                                                                                                Beijuuss, felizes, nos pelos!
Rézina da Grória
     E, em homenagem a macacos, humanos e anjos, vamos deslindar a história da Árvore de Natal...

*  *  *  *  *
     Dentre todos os seres que habitam este planetinha, nenhum é mais nobre que a árvore.
Araucária - Curitiba, 1977 (RRB)

     Não é exagero.  Rainha dos vegetais, ela - como seus súditos - alimenta-se de luz, erguendo alto sua copa; e através do milagre da fotossíntese, constrói seu tecido vivo a partir dos minerais inertes do solo, onde mergulha fundo suas raízes, tornando-se assim o símbolo perfeito da ligação entre  a Terra e o Céu!
     Enquanto viva, ela distribui suas bênçãos em forma de frutos e flores, sementes e oxigênio, sombra, alimento e abrigo, e mesmo depois de morta fornece a seu predador o lenho para sua habitação, suas embarcações, seus apetrechos e seu aquecimento.
     Cinco mil anos atrás, qualquer moleque sumeriano analfabeto conhecia mais intimamente esse ser nobre que qualquer um de nós, modernos "civilizados". Através dos tempos, encontramos mitos e lendas, rituais e costumes que demonstram o profundo respeito que o bicho-homem tem (ou tinha) pela natureza em geral e pelas árvores em particular. Vejamos um excerto da Wikipedia:
     "Entre os egípcios, o cedro se associava a Osíris. Os gregos ligavam o loureiro a Apolo, o abeto a Átis, a azinheira a Zeus. Os germânicos colocavam presentes para as crianças sob o carvalho sagrado de Odin. Nas vésperas do solstício de inverno, os povos pagãos da região dos países bálticos cortavam pinheiros, levavam-nos para seus lares e os enfeitavam de forma muito semelhante ao que faz nas atuais Árvores de Natal. Essa tradição passou aos povos Germânicos."
     É nesse contexto histórico que devemos buscar a origem e o significado da Árvore de Natal. Quando São Bonifácio tentou abalar essas crenças pagãs na Turíngia, cortando a machadadas um pinheiro sagrado, teve tal insucesso que resolveu mudar de tática: decidiu então associar os pinheiros aos ensinamentos cristãos, comparando sua perenidade à eternidade de Jesus. Essa seria a origem da Árvore de Natal. Outras versões mencionam Martinho Lutero como o iniciador da tradição.
     Citando ainda a Wikipedia: "...a moderna Árvore de Natal teria realmente surgido na Alemanha entre os séculos XVI e XVIII. Não se sabe exatamente em qual cidade ela tenha surgido. Durante o século XIX a prática foi levada para outros países europeus e para os Estados Unidos. Apenas no século XX essa tradição chegou à América Latina".
     E mais: "Atualmente essa tradição é comum a católicos, protestantes e ortodoxos". E acrescenta que algumas famílias judaicas da América do Norte adotaram o costume de ornamentar um arbusto - o "arbusto do Chanucá" (festa judaica comemorada em data próxima ao Natal), numa espécie de sincretismo com a Árvore de Natal cristã.
     Vamos pois, amigos, evitar cortar árvores para ornamentar nosso Natal. Este é um dos casos em que podemos - e devemos - usar uma réplica artificial em lugar do produto natural. O Xipan e o mundo agradecem.


     Última hora: Ontem, dia 25, o filhão Ricardo recebeu seu diploma de Controlador de Tráfego Aéreo. Com excelente classificação, já tem emprego garantido - e aqui perto, em Jacarepaguá! Bravo, Ricardo!
     Outra nota: Consuelo, mãe do menino Arthur - cuja luta vários amigos já conhecem - pede para divulgar que ela prossegue em sua batalha em
http://www.4moms.com.br/index.php/2011/11/consuelo-de-freitas-machado-martin/


Próximo artigo desta série: Origens - 3/12.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

777


Aproveitando que é de Graça...

Em sete sílabas poéticas
Canto sete musas líricas,
Com sete rimas ecléticas,
Por sete estrofes oníricas;
Cumprindo regras estéticas,
Seguindo as normas éticas,
Mas com pitadas empíricas...

     Revendo os comentários em versos que me foram inspirados por tantas páginas de lirismo das musas deste recanto da blogosfera, notei-me uma certa tendência para valorizar o numeral "sete".
     Não me surpreendi. Mesmo não sendo supersticioso, sinto um curioso fascínio pelo maior algarismo primo de nosso sistema decimal. O próprio nome deste blog deriva de meu primeiro conto - Os Sete Ramos de Oliveira - onde sete primos vivem, em sete capítulos, peripécias em torno da magia do número 7.
     Resolvi, portanto, reunir alguns desses comentários em sete estrofes, cada uma com sete versos, esses em redondilhas de sete sílabas métricas. Um ou outro, de seis versos, recebeu um enxerto; e estabeleci um esquema de rimas ABABCCB ou similar - com a condição de rimar obrigatoriamente o penúltimo verso com o antepenúltimo e não deixar qualquer outro órfão de rimas. A meus olhos - ou melhor, a meus ouvidos - esse esquema dá à declamação um sabor todo especial de desafio de violeiros, de cantares repentistas, de poesia de cordel, além de ser facilmente musicável. Batizei-o com um nome provisório; e submeto à apreciação dos amigos meu primeiro sete-sete-sete:

SETE MUSAS
MA 20/11
Raios de sol refratados
Na fímbria da Mantiqueira
De miragens são chamados,
São fugazes, não têm eira;
Mas foram capturados,
Em barro imortalizados,
Pela mão de Ma Ferreira.
MARILENE 17/11
Se queres manter acesa
A chama viva do amar
É preciso, com presteza,
Outra tocha inflamar
Quando vires - que tristeza! -
Que a primeira, com certeza,
Vai em breve se apagar.
CARLA 17/11
Boa semente plantada
Em solo bom e fecundo
Mesmo que seja pisada
Germinará para o mundo;
Não mais será solidão:
Crescerá no coração
Pra florir amor profundo.
DENISE 15/11
Não tenho mãos a medir
Pro abraço que quero dar
E a ti retribuir
Esse carinho sem par;
Então, vou só te abraçar
E em meus braços te apertar
Para teu calor sentir.
MÁRCIA 12/11
Se quiseres, bela rosa,
Serei o teu jardineiro;
Não haverá mais formosa
Que te dispute o canteiro.
Serás sempre a preciosa,
Perfumada e perfumosa,
Florirás o ano inteiro.
ANDRÉYA 11/11
Teu "estar" é o "ser" da hora,
Pois depois outro será;
Teu "haver" é o "ter" de agora,
Amanhã - que haverá?
Sejas pedra, estejas água,
Tenhas risos, hajas mágoa,
Alguém sempre te amará!
OCEANO AZUL 31/10
Sonho azul, que à clausura
Entregaste o coração,
Deixa tua alma pura
Em silêncio e solidão
Na sua cela segura
Até que ela alcance a cura,
E liberta-a, então!

     Uma vez que as estrofes foram recolhidas a esmo, falta ainda à composição a unidade temática que caracteriza um verdadeiro poema; mas os próximos já terão essa unidade. Este aí é só para recortar o figurino.
Niterói, novembro de 2011 - Rodolfo Barcellos

     Nota: Não sei se esta forma poética já tem nome ou criador. Havendo-os, que se apresentem, para que eu possa dar-lhes os créditos devidos.
     Outra nota: Apesar de ser leigo, sou admirador da poesia de cordel, do repentismo e dos desafios de viola. Embora arriscando-me a levar um puxão de orelhas dos mestres, vou tentar adaptar o 777 para essas modalidades; estou pesquisando o assunto e agradeço quaisquer sugestões.

sábado, 19 de novembro de 2011

Papai Noel

     O "Sete Ramos" inicia hoje a republicação da mesma série de "posts" com que comemorou, há um ano, a época das festas natalinas. Os textos foram mantidos, exceto por um ou outro retoque, e trouxeram consigo os comentários de um ano atrás. Mas a ordem das matérias foi modificada, e isso deixou os comentários um pouco desordenados.
     Este ano, começarei com o Papai Noel, para que os amigos que quiserem possam ter tempo de escrever sua cartinha (ou um e-mail) para o bom velhinho.
*  *  *  *  *
     Muitos séculos antes de nossa era, durante os festivais primitivos que celebravam o solstício de inverno - quando o sol interrompia sua "fuga" e as noites começavam a ficar menos longas - já havia nas aldeias o hábito da troca de presentes. O costume persistiu e chegou às Saturnálias romanas; e quando a Igreja Católica escolheu o dia 25 de dezembro como a data oficial do nascimento de Jesus, a Saturnália foi banida, mas alguns dos costumes pagãos, como a troca de presentes, acabaram sendo adotados pelos cristãos.
     Há quem justifique o costume tomando como exemplo o fato de que os Reis Magos teriam ofertado como presentes a mirra, o incenso e o ouro - mas que eu saiba, eles presentearam o Rei dos Judeus, em vez de trocarem os presentes entre si.
     Hoje, associamos o ato de presentear, no Natal, à figura de um velhinho de longa barba branca, bem humorado, com um traje que lembra o de um duende - ou palhaço - e um saco de presentes às costas. Mas como nasceu a história de Papai Noel?
     Bem, Papai Noel nasceu na  Turquia, no século III. Chamava-se Nicolau, era bispo e adorava crianças. Era rico, e em dezembro tinha o hábito de distribuir presentes entre os pobres e as crianças.
     Em pouco tempo, a história do velhinho chegou à Grécia e à Itália, já com a fama de milagreiro. A Igreja Católica decidiu canonizá-lo e instituiu como seu dia o 25 de dezembro, junto com o Natal.
     Essa é a história do verdadeiro Papai Noel ("Saint N'klaus", o popular "Santa Claus"). Esse existiu - ou existe -de verdade, em algum lugar perdido no Tempo e no Espaço, mas real; e sua tradição de bondade e altruísmo sobrevive nas campanhas humanitárias - principalmente as organizadas nas comunidades próximas a nós, onde podemos ver e sentir os resultados de nossas contribuições.
     E basta lermos o belo "post" da Regina, há um ano, no "Tofora-Todentro", intitulado "Papai Noel existe?", para sentirmos, no texto e nos comentários, a realidade do bom velhinho. Confira em:

http://toforatodentro.blogspot.com/2010/12/papai-noel-existe.html
     Mas há pessoas que não acreditam nele, porque infelizmente um clone falso e enganador se espalhou pelo mundo, fazendo-se passar por ele; eu o chamo de "Papai Noel que não existe".
     Esse curioso processo de clonagem ocorreu nos séculos XIX e XX. Em 1809, o escritor Washington Irving resolveu popularizar a história de São Nicolau nos Estados Unidos e descreveu "Santa Claus" como um duende gorducho que aparecia nas noites de Natal e distribuía presentes - montado num cavalo voador! E o imaginário popular absorveu essa imagem caricata...
     Em 1822, o cavalo foi aposentado e substituído por um trenó supersônico, tirado por oito renas: Dasher - Corredora; Dancer - Dançarina; Prancer - Empinadora; Vixen - Raposa; Comet - Cometa; Cupid - Cupido; Donner - Trovão; Blitzen - Relâmpago.
     Mas não parou aí. O aspecto sóbrio das roupas do personagem - capote de inverno cinza ou verde - foi transformado no atual visual de palhaço pelo cartunista Thomas Nast, na revista Harper's Weeklys, em 1886, na edição especial de Natal.
     E  em 1931 a clonagem se consumou. Buscando aumentar suas vendas, sempre fracas no inverno, a Coca-Cola aproveitou a caricatura de Nast, que tinha suas cores - vermelho e branco - e apresentou Papai Noel ao mundo, em grande estilo,  numa campanha publicitária milionária... que fez grande sucesso!

Quatro etapas da "clonagem"

     É curioso. Desde então, mais e mais crianças acreditam num Papai Noel falso, e depois de alguns anos sofrem a profunda desilusão de ter que abandonar esse sonho. E consequentemente mais e mais adultos não acreditam em qualquer Papai Noel - nem no falso, nem no verdadeiro!
     Essa descrença dos adultos é alimentada pelas campanhas publicitárias e pelos inúmeros Papais Noéis de fancaria, nos shoppings e lojas. Os mesmos fatores respondem pelo aumento da ilusão infantil, que é ainda reforçada por pais que não conhecem o Papai Noel de verdade - o que existe, e que deveria ser representado por eles, pais.
     Nesse mundo que gira em torno do dólar, é inevitável que nossos filhos e netos, quando pequenos, sejam contaminados por ilusões e fantasias sabidamente preparadas para alimentar o consumismo capitalista. Deixemos, enquanto pequenas, que sonhem com o "bom velhinho"; mas devemos prepará-las para o dia em que terão que trocar seus sonhos infantis pelos sonhos de adultos - num processo de crescimento interior que não conhece a tristeza de abandonar uma bela fantasia e sentir-se vazio de sonhos... basta que o sonho que não existe seja substituído pelo que existe, e que traz em si valores mais sólidos.
     Um texto bem mais extenso e explicativo sobre a "clonagem" pode ser consultado em:
http://jipemania.com/coke/historia_do_natal_V3.pdf
     E o Papai Noel que existe tem escritório com endereço. Anote:
     Santa Claus
     FIN-96930 Arctic Circle
     Rovaniemi - Finlândia
     http://www.santaclausoffice.fi
     Lá, as cartas recebidas com remetente recebem uma resposta em oito idiomas diferentes. E nesse "site" o representante "oficial" (embora vestido à moda Coca-Cola) dá expediente no horário comercial (4 horas a mais que o horário de verão no Brasil). Dias 24 e 25 de dezembro ele fará hora-extra. Mas a qualquer momento você pode curtir ao vivo músicas natalinas e a bela paisagem do inverno ártico.

     Ano passado, a Tânia lembrou bem: no Brasil, os Correios recebem milhares de cartas endereçadas a "Papai Noel", e qualquer um de nós pode escolher algumas para responder, incorporando assim uma pequena parcela do Papai Noel de verdade. Veja o comentário dela. E querendo participar ou obter mais informações, acesse o site
http://www.correios.com.br/papainoelcorreios2011/
     Para fechar: em 1936, alguém teve a infeliz idéia de acrescentar uma nona rena às oito já reconhecidas popularmente, dotando-a de um brilhante nariz vermelho e colocando-a como líder à frente das outras. O nome do animal (a rena, não o "iluminado"):  Rudolph - Rodolfo!
     Pode?!



     Próximo artigo desta série: A árvore - 26/11.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Proclamação


A Liberdade guiando o povo - Delacroix

Proclamação da República - H. Bernardelli


Saudamos hoje a musa da Igualdade
Que neste dia no Brasil nasceu
Num raio de Justiça e Liberdade
Onde a Fraternidade aconteceu;


Não canto, amigos, aquela francesa
De seio nu, estandarte na mão,
Que, ao som da gloriosa Marselhesa,
Tanto sangue espalhou pelo chão;


Lúcia Helena Cavichioli

Saibam, pois, todos quantos isto lerem,
Que hoje é feriado só por serem
Mais doze meses numa linda vida;


Chapéus ao alto! Hoje proclamamos,
E a ti nós, teus amigos, desejamos
Feliz aniversário, Lu querida!


Rodolfo Barcellos - 15/11/2011

sábado, 12 de novembro de 2011

Triste Chuva


     Está frio, e chove. Embrulho-me no meu puído manto de esperança e abrigo-me sob o guarda-chuva rasgado de um otimismo falso. Mas o vento cortante da tristeza insiste teimosamente em trazer-me as gotas grossas e geladas da solidão, enquanto a espessa neblina cinzenta da saudade, mal iluminada pelo solitário lampião das recordações, paira como uma mortalha sobre a rua escura e vazia que é minh'alma.


     Incomoda, essa luz espectral, amarelenta e morta do velho lampião. Parece sólida, como se fosse tinta velha, pintando cada gota de chuva com cores doentias. Dói...
     O tempo gruda-se em meus dedos, como uma massa amorfa, feita de momentos desconexos, o presente perdido nos passados. São momentos ocos e pesados, intermináveis como um soluço preso na garganta, eternos como a lágrima que teima em não rolar.
     Vislumbro ao longe, no limiar da visão, um fantasma silencioso e meditativo. É teu vulto, talvez, perdido no infinito espaço vazio que existe entre duas camadas de eternidade.
     Quero seguir-te. Quero alcançar-te. Mas não posso. E choro a minha renúncia em lágrimas ausentes e vazias. E percebo, enfim, que também eu sou um espectro extraviado, vagando num mundo que não é o meu.
     Choro. E sobre mim continua chovendo esta tristeza... esta solidão...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Estrofação


Estrofes são agrupamentos de versos com unidade de conteúdo e de ritmo. Um poema com uma única estrofe é dito monostrófico; havendo mais, são separadas entre si por linhas em branco e não há denominação específica para o poema (em relação ao número de estrofes).
Cada estrofe tem uma designação que reflete o número de versos que a compõem:
1  verso  - Monóstico
2 versos - Dístico
3 versos - Terceto
4 versos - Quarteto ou quadra
5 versos - Quintilha
6 versos - Sextilha
7 versos - Septilha, ou sete-versos
8 versos - Oitava
9 versos - Nona, ou nove-versos
10 versos - Décima
Mais de dez versos: estrofe irregular.
Um verso repetido no início das estrofes chama-se antecanto. No final, é um bordão. Um conjunto de versos repetidos ao longo do poema é um refrão ou estribilho.
Na versificação livre, a divisão do poema em estrofes fica por conta do poeta, que levará em conta as pausas, as mudanças de ritmo ou de assunto, a eufonia no declamar, a musicalidade etc. Já os poemas de forma fixa são caracterizados principalmente pelo número, tipo e distribuição das estrofes. Os mais comuns nas línguas de raízes latinas são:
Soneto: formado por dois quartetos e dois tercetos, nessa ordem, geralmente com versos decassílabos. Popularizou-se através de Petrarca e Camões;
Balada: com três oitavas e uma quadra;
Rondel: duas quadras e uma quintilha;
Rondó: com estrofação uniforme de quadras;
Sextina: formado por seis sextilhas e um terceto;
Indriso: dois tercetos e dois monósticos, os quais podem ser rimados e metrificados ou compostos por versos brancos.
Trova: poema monostrófico de quatro redondilhas maiores, rimadas, sem título e com sentido completo.


Entre os "estrangeiros" encontraram boa acolhida entre nós:
Haicai: poema monostrófico originário do Japão, com três redondilhas: duas menores (pentassílabos, o primeiro e o terceiro versos) e uma maior  (heptassílabo, o segundo):
Escorpião no Sol:
Nasce o fio candente
A tecer idéias.
(Um Hai-kai para Denise - versos meus)
Soneto inglês: três quartetos e um dístico, geralmente em decassílabos na forma de pentâmetro iâmbico (sílabas pares tônicas). Apesar da dificuldade da tradução - decorrente da concisão monossilábica do idioma inglês - herdou entre nós a fama de seu principal divulgador: William Shakespeare.
The little Love-god lying once asleep,
Laid by his side his heart-inflaming brand,
Whilst many nymphs that vowed chaste life to keep
Came tripping by; but in her maiden hand

The fairest votary took up that fire
Which many legions of true hearts had warmed;
And so the General of hot desire
Was, sleeping, by a virgin hand disarmed.

This brand she quenched in a cool well by,
Which from Love's fire took heat perpetual,
Growing a bath and healthful remedy,
For men diseased; but I, my mistress' thrall,

Came there for cure and this by that I prove, 
Love's fire heats water, water cools not love.
(Shakespeare, soneto 154)
Jerônimo de Aquino, um dos tradutores mais prestigiados de Shakespeare, traduziu assim o dístico que fecha o último soneto do grande dramaturgo:
Fui aí, mas sem fé. Como se há de supor
Que água aquecida com tal facho esfrie o amor?
(Sonetos, Shakespeare - Ed. Martin Claret, p. 180)
Por aí se pode aquilatar a dificuldade de se traduzir poesia, obedecendo à forma original.
Há um tipo de composição poética cuja estrofação depende unicamente do título - ou pelo menos do tema: é o acróstico.
Dia dos Namorados


Duas só almas, gêmeas, se encontram,
Intímidas, amigas, companheiras,
A trocar entre si vidas inteiras.

Duas vozes irmãs em coro cantam
O hino do amor, em tons suaves,
Soltando os versos, como belas aves.

Na espera de mil beijos prometidos
Ao sopro de mil juras mal contidas,
Mil horas num minuto são vividas.
O Sol se esconde entre fulvos ares,
Romântica neblina resplendente,
Ardendo nos vermelhos do poente.
De súbito, centelham os olhares;
Os lábios unem-se em fulgente prece;
Só deles é o milagre que acontece.
(Versos meus)
E não devemos esquecer a composição mais autêntica de nosso povo, aquela que inspira os repentistas e os desafios de violas - a poesia de cordel, geralmente em sextilhas, com um esquema de rimas peculiar e vazada em redondilhas maiores, mas com liberdades de metro e rima que não são bem aceitas nas formas "clássicas". Vejamos um "cordel" de Francisco Diniz:
O que é literatura de cordel?

Literatura de Cordel
É poesia popular,
É história contada em versos
Em estrofes a rimar,
Escrita em papel comum,
Feita pra ler ou cantar.

A capa é em xilogravura,
Trabalho de artesão,
Que esculpe em madeira
Um desenho com ponção
Preparando a matriz
Pra fazer reprodução.

Mas pode ser um desenho,
Uma foto, uma pintura,
Cujo título, bem à mostra,
Resume a escritura.
É uma bela tradição,
Que exprime nossa cultura.

7 sílabas poéticas,
Cada verso deve ter
Pra ficar certo, bonito
E a métrica obedecer,
Pra evitar o pé quebrado
E a tradição manter.


Os folhetos de cordel
Nas feiras eram vendidos
Pendurados num cordão
Falando do acontecido,
De amor, luta e mistério,
De fé e do desassistido.

A minha literatura
De cordel é reflexão
Sobre a questão social
E orienta o cidadão
A valorizar a cultura
E também a educação.

Mas trata de outros temas:
Da luta do bem contra o mal,
Da crença do nosso povo,
Do hilário, coisa e tal
E você acha nas bancas
Por apenas um real.

O cordel é uma expressão
Da autêntica poesia
Do povo da minha terra
Que luta pra que um dia,
Acabem a fome e miséria,
Haja paz e harmonia.
(Francisco Diniz)
Poemas como esse, com métrica, rima e uma estrofação adequada, são mais facilmente musicáveis que aqueles feitos com versos soltos. Muito se poderia falar ainda sobre esse assunto, mas chega por agora. Se algum leitor incauto for contaminado pelo vírus da lírica, já me sentirei recompensado. E permitam-me fechar com um belo soneto de Machado de Assis - e a saudação poética:
A Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas desta longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que a despeito de toda a humana lida,
Fez nossa existência apetecida,
E n'um recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados

Pois se trago nos olhos mal feridos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
(Machado de Assis)
Ave!
Referências: Wikipedia e "Site" da ABL