A Marilene deixou-me, na postagem anterior, estas frases em comentário:
"Nada entendo sobre formatação de versos."
"Sempre me deixei levar, exclusivamente, pelo sentimento que as palavras me despertam".
Pois contem as sílabas, cantem os versos e sintam a perfeição das redondilhas que nasceram da alma lírica dessa poetisa que nada entende de metrificação:
Agoniza o sonho
No nascer da aurora,
No nascer da aurora,
Noite insone e fria
Sem a companhia
Do que era esperado,
Cai a chuva fina
Chora a alma em rimas;
O jarro sem flores
Conta suas dores
E a beleza ausente,
Até ele sente
Que ficou vazio
Sem a excelência
Das rosas vermelhas
Das velas acesas
Que por sobre a mesa
Eram luz e vida.
As paredes guardam
O som dos sorrisos
E a foto do abraço
Que tanto encantava
Ora está rasgada
E jogada ao chão;
Todo o ambiente
Foi contaminado
Com a forte tristeza
Da desilusão.
(Desilusão - Marilene, Momentos Fragmentados, 12 de outubro de 2011)
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Conforme aumenta o número de sílabas, vai crescendo em importância a influência de outras tônicas, além da última, no ritmo da declamação - os "pés" do verso. Os Hexassílabos ou Heróicos Quebrados (versos de seis sílabas métricas) costumam ter, como sílabas fortes, a segunda e a sexta:
Não solta a voz canora
No bosque o vate alado,
Que um canto disparado
Tem sempre a cada aurora;
É mudo quando habita
Da terra n'amplidão.
(Gonçalves Dias)
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O metro heptassilábico é, a meu ver, o mais presente na poesia - pelo menos, na poesia brasileira. Suas sete sílabas poéticas aliam a expressividade dos versos mais longos à simplicidade de construção do verso mais curto. É a famosa Redondilha Maior:
A última forte prima
Por levar do verso o cetro:
É onde começa a rima,
É onde termina o metro.
(Versos meus)
Essa lembrança insistente,
Qual uma mosca vadia,
Vive pousando na gente;
E a gente se arrelia,
E a espanta novamente,
Até que desista um dia.
(Versos meus, em comentário ao Decidi Viver, da Déya, em 08/05/11)
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Os Octassílabos (versos de oito sílabas) não são muito comuns:
Ó meu amor que já morreste,
Ó meu amor que morta estás!
Lá nessa cova a que desceste,
Ah! nunca mais florescerás?
(Cruz e Souza)* * * * *
Já os Eneassilabos (versos de nove sílabas métricas) são mais usados:
Minha musa não é como ninfa
Que se eleva das águas, gentil,
Co' um sorriso nos lábios mimosos,
Com requebros, com ar senhoril.
(Gonçalves Dias)* * * * *
Os Decassílabos são famosos, principalmente quando em forma de Heróicos - que apresentam uma segunda tônica na sexta sílaba. Camões escreveu Os Lusíadas em 8.816 versos heróicos perfeitos:
As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca d'antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
(Luis Vaz de Camões - Os Lusíadas)Os decassílabos são também os preferidos pelos sonetistas. Versáteis, apresentam as seguintes variações:
Heróico - Decassílabo com sílabas tônicas nas posições 6 e 10
Sáfico - Decassílabo com sílabas tônicas nas posições 4, 8 e 10
Martelo - Variedade do Heróico com tônicas nas posições 3, 6 e 10
Gaita Galega ou Moinheira - Decassílabo com tônicas nas posições 4, 7 e 10
Estas variações podem misturar-se, sem comprometer a qualidade lírica da composição:
Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu,
Quem nunca sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem;
Só passou pela vida - não viveu.
(Francisco Otaviano)* * * * *
Hendecassílabos (versos de onze sílabas métricas) são mais comuns do que se pensa. E quando o poeta consegue distribuir as tônicas nas sílabas de número 2, 5, 8 e 11, o resultado é um ritmo hipnotizante - comparável ao Rap moderno:
Nos últimos cimos dos montes erguidos
Já silva, já ruge do vento o pegão;
Estorcem-se os leques dos verdes palmares,
Volteiam, requebram, doudejam nos ares,
Até que lascados baqueiam no chão.
(Gonçalves Dias)* * * * *
Alexandrinos ou Dodecassílabos (versos com doze sílabas métricas) já foram os preferidos para composições épicas:
Fernão Dias Pais Leme agoniza. Um lamento
Chora longo, a rolar na longa voz do vento.
Mugem soturnamente as águas. O céu arde.
Trasmonta fulvo o sol. E a natureza assiste,
Na mesma soidão e na mesma hora triste,
À agonia do herói e à agonia da tarde.
(Olavo Bilac - O Caçador de Esmeraldas)
Não te apoquentes, poetisa, se ao andares
Ao sol morno da praia, em total solidão,
Olhando para a areia, lá tu divisares
A par de tua sombra outra mais no chão;
É a sombra da ausência, da saudade tua
Que foge, em tua busca, do meu coração
Deixando em meu peito a lembrança nua,
A dor de teu vazio, o afago de tua mão.
(Versos meus, em comentário a "Sombras", da Carla Fernanda - Amor Acordado, 25/10/11)
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Versos de treze ou mais sílabas poéticas são classificados sob o rótulo geral de Versos Bárbaros:
Felizes são aqueles que caminham sem cuidado,
Lançando às mancheias as sementes pelo chão;
Nem todas ao cair sempre terão em flor brotado,
Mas muitas ao passante com certeza alegrarão.
(Versos meus, de 14 sílabas, em comentário a "Jardineiro de Almas", da Carla Fernanda - Amor Acordado, agosto de 2011)
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Próximo e (espero) último capitulo: Estrofação.






