quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Métrica

O verso pentassílabo - cinco sílabas poéticas - é extremamente popular, por ser de fácil construção e de belo efeito declamatório, com seu ritmo marcante. Talvez por isso tenha recebido o nome específico de Redondilha Menor.
A Marilene deixou-me, na postagem anterior, estas frases em comentário:
"Nada entendo sobre formatação de versos."
"Sempre me deixei levar, exclusivamente, pelo sentimento que as palavras me despertam".
Pois contem as sílabas, cantem os versos e sintam a perfeição das redondilhas que nasceram da alma lírica dessa poetisa que nada entende de metrificação:


Agoniza o sonho
No nascer da aurora,
Noite insone e fria
Sem a companhia
Do que era esperado,
Cai a chuva fina
Chora a alma em rimas;

O jarro sem flores
Conta suas dores
E a beleza ausente,
Até ele sente
Que ficou vazio
Sem a excelência
Das rosas vermelhas
Das velas acesas
Que por sobre a mesa
Eram luz e vida.

As paredes guardam
O som dos sorrisos
E a foto do abraço
Que tanto encantava
Ora está rasgada
E jogada ao chão;

Todo o ambiente
Foi contaminado
Com a forte tristeza
Da desilusão.


(Desilusão - Marilene, Momentos Fragmentados, 12 de outubro de 2011)
*  *  *  *  *
Conforme aumenta o número de sílabas, vai crescendo em importância a influência de outras tônicas, além da última, no ritmo da declamação - os "pés" do verso. Os Hexassílabos ou Heróicos Quebrados (versos de seis sílabas métricas) costumam ter, como sílabas fortes, a segunda e a sexta:


Não solta a voz canora
No bosque o vate alado,
Que um canto disparado
Tem sempre a cada aurora;
É mudo quando habita
Da terra n'amplidão.
(Gonçalves Dias)
*  *  *  *  *
O metro heptassilábico é, a meu ver, o mais presente na poesia - pelo menos, na poesia brasileira. Suas sete sílabas poéticas aliam a expressividade dos versos mais longos à simplicidade de construção do verso mais curto. É a famosa Redondilha Maior:


A última forte prima
Por levar do verso o cetro:
É onde começa a rima,
É onde termina o metro.
(Versos meus)


Essa lembrança insistente,
Qual uma mosca vadia,
Vive pousando na gente;
E a gente se arrelia,
E a espanta novamente,
Até que desista um dia.


(Versos meus, em comentário ao Decidi Viver, da Déya, em 08/05/11)
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Os Octassílabos (versos de oito sílabas) não são muito comuns:


Ó meu amor que já morreste,
Ó meu amor que morta estás!
Lá nessa cova a que desceste,
Ah! nunca mais florescerás?
(Cruz e Souza)
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Já os Eneassilabos (versos de nove sílabas métricas) são mais usados:


Minha musa não é como ninfa
Que se eleva das águas, gentil,
Co' um sorriso nos lábios mimosos,
Com requebros, com ar senhoril.
(Gonçalves Dias)
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Os Decassílabos são famosos, principalmente quando em forma de Heróicos - que apresentam uma segunda tônica na sexta sílaba. Camões escreveu Os Lusíadas em 8.816 versos heróicos perfeitos:


As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca d'antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
(Luis Vaz de Camões - Os Lusíadas)


Os decassílabos são também os preferidos pelos sonetistas. Versáteis, apresentam as seguintes variações:
Heróico - Decassílabo com sílabas tônicas nas posições 6 e 10
Sáfico - Decassílabo com sílabas tônicas nas posições 4, 8 e 10
Martelo - Variedade do Heróico com tônicas nas posições 3, 6 e 10
Gaita Galega ou Moinheira - Decassílabo com tônicas nas posições 4, 7 e 10
Estas variações podem misturar-se, sem comprometer a qualidade lírica da composição:


Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu,
Quem nunca sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem;
Só passou pela vida - não viveu.
(Francisco Otaviano)
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Hendecassílabos (versos de onze sílabas métricas) são mais comuns do que se pensa. E quando o poeta consegue distribuir as tônicas nas sílabas de número 2, 5, 8 e 11, o resultado é um ritmo hipnotizante - comparável ao Rap moderno:


Nos últimos cimos dos montes erguidos
silva, já ruge do vento o pegão;
Estorcem-se os leques dos verdes palmares,
Volteiam, requebram, doudejam nos ares,
A que lascados baqueiam no chão.
(Gonçalves Dias)
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Alexandrinos ou Dodecassílabos (versos com doze sílabas métricas) já foram os preferidos para composições épicas:


Fernão Dias Pais Leme agoniza. Um lamento
Chora longo, a rolar na longa voz do vento.
Mugem soturnamente as águas. O céu arde.
Trasmonta fulvo o sol. E a natureza assiste,
Na mesma soidão e na mesma hora triste,
À agonia do herói e à agonia da tarde.
(Olavo Bilac - O Caçador de Esmeraldas)


Não te apoquentes, poetisa, se ao andares
Ao sol morno da praia, em total solidão,
Olhando para a areia, lá tu divisares
A par de tua sombra outra mais no chão;

É a sombra da ausência, da saudade tua
Que foge, em tua busca, do meu coração
Deixando em meu peito a lembrança nua,
A dor de teu vazio, o afago de tua mão.


(Versos meus, em comentário a "Sombras", da Carla Fernanda - Amor Acordado,  25/10/11)
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Versos de treze ou mais sílabas poéticas são classificados sob o rótulo geral de Versos Bárbaros:


Felizes são aqueles que caminham sem cuidado,

Lançando às mancheias as sementes pelo chão;
Nem todas ao cair sempre terão em flor brotado,
Mas muitas ao passante com certeza alegrarão.


(Versos meus, de 14 sílabas, em comentário a "Jardineiro de Almas", da Carla Fernanda - Amor Acordado, agosto de 2011)

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Próximo e (espero) último capitulo: Estrofação.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Versejando


O poeta:
- Fiz uns versinhos infantis: Batatinha quando nasce / esparrama pelo chão...
O literato:
- Magnífico haplologismo! Você mudou Espalha a rama em Esparrama em favor da métrica! Fico maravilhado com seus metaplasmos poéticos - epêntese, paragoge, sinalefa, zeugma, aférese, síncope, apócope, próclise, ênclise, elisão... com destaque para os excelentes hiperbibasmos na construção do ritmo!
O poeta:
- Hã?
*  *  *  *  *
Não sou literato. Aqueles palavrões ali em cima, busquei-os na Wikipédia e já me esqueci do significado da maioria. Mas, como quase todo mundo, gosto de me considerar um poeta; e essas linhas que escrevo agora são de um poeta-rodado diletante para quem quiser lê-las, especialmente diletantes poetas-esperanças. Isto posto, vamos ao que interessa.
Em poesia, a escola romântica e as vertentes atuais renegam a métrica e a rima, em favor da expressividade do verso; mas mesmo seus grandes vates deixaram, em sua maioria, poemas que se subordinam às normas clássicas e a formas consagradas, com regras rígidas, como o soneto. E não há coisa melhor para exercitar e enriquecer o estro do poeta do que submeter-se às limitações impostas pelo metro e pela rima, e mesmo assim expor com clareza e harmonia a alma de seu poema.
Sim, também eu gosto da liberdade que o verso branco, solto, livre, me proporciona. Mas não abandonarei meu amor pela música da rima e pelo ritmo do metro. E, embora me entregue por vezes à volúpia dessa orgia de liberdade, eu retornarei sempre - amante infiel arrependido (mas não muito) - aos braços daquela poesia vestida com o manto diáfano da lira clássica. Ela sempre me perdoa.
Não tenho pretensão de ensinar o padre-nosso ao vigário; este breviário foi feito para noviços e coroinhas, não para arcebispos e cardeais. Por isso é bom repassar, para início de conversa, as regras básicas do verso clássico. E que tal mostrarmos as regras vestidas nelas mesmas?


A última tônica prima
Por levar do verso o cetro:
É onde começa a rima,
É onde termina o metro.
(Trova minha)


É por isso que prima não rima com Roma, e sim com rima, e cetro rima com metro mas não com mastro.
Quanto à métrica - a contagem das sílabas poéticas - quase todo mundo sabe que as sílabas átonas depois da última tônica não são contadas. É isso que produz o senso de ritmo - os pés do verso - quando declamamos um poema em voz audível.
Há alguns "macetes" para se acertar o metro de um verso torto (de pé quebrado):
1 - Ditongos têm valor de uma só sílaba poética. Duas ou mais vogais, átonas ou até mesmo tônicas, podem fundir-se entre uma palavra e outra, formando uma só sílaba poética - um ditongo: "É-on-de-ter-mi-nao-me-(tro)" (7 sílabas poéticas).
2 - Muito raramente, hiatos podem ser pronunciados como ditongos. É um recurso que "força" uma pronúncia pouco natural, ao declamar: "Aúl-ti-ma-tô-ni-ca-pri-(ma)" (7 sílabas poéticas).
3 - A existência de uma proparoxítona no miolo do verso permite uma pronúncia mais natural: "A-úl-ti-ma-tô-n'ca-pri-(ma)" (acho que os literatos chamam isso de síncope).
4 - Também pode-se trocar a ordem das palavras, buscando um encontro vocálico, ou usar no "miolo" do verso sinônimos com maior ou menor número de sílabas: "A-úl-ti-ma-for-te-pri-(ma)" (7 sílabas poéticas).
Em qualquer caso, é importante manter a eufonia - a harmonia da fala ao declamar - e a expressividade.


VERSOS DE METRO CURTO


Monossílabos - uma única sílaba métrica:


Vagas,
Plagas,
Fragas,
Solam
Cantos;
Cobrem
Montes
Fontes,
Tíbios
Mantos.
(Fagundes Varela).


Cala,
Canto!
Fala,
Pranto!

Ora
Chora,
Ora
Ri.

Tantos
Mantos
Fora,

Tontos
Contos
Vi!
Alma - "Soneto" monossilábico (versos meus).




Dissílabos - duas sílabas métricas:


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu vi!...
A Valsa (Casimiro de Abreu).


Nos bosques
Tristonhos,
Em sonhos
Perdidas,
Sentidas
Gorjeavam
As aves.
(Fagundes Varela).



Trissílabos - três sílabas métricas:


Vem a aurora
Pressurosa
Cor de rosa
Que se cora
De carmim.
(Gonçalves Dias).




Tetrassílabos - quatro sílabas métricas:


Andava um dia
Em pequenino
Nos arredores
De Nazaré,
Em companhia
De São José,
O Deus-Menino,
O Bom-Jesus.
Eis senão quando
Vê num silvado,
Andar piando,
Arrepiado
E esvoaçando,
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha atraído,
Tinha encantado.
Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sai do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto;
Foge a serpente;
E, de repente,
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe num canto
Tão requebrado,
Ou antes, pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
De uma alegria,
Uma expansão,
Uma veemência,
Uma expressão,
Uma cadência
Que comovia
O coração!
Jesus caminha
No seu passeio;
E a avezinha
Continuando
No seu gorjeio,
Em quanto o via,
De vez em quando
Lá lhe passava
À dianteira;
E mal pousava,
Não afrouxava,
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!
Assim foi indo
E foi seguindo,
De tal maneira
Que, noite e dia,
Numa palmeira,
Que havia perto
De onde morava
Nosso Senhor
Em pequenino
(Era já certo)
Ela lá estava
A pobre ave,
Cantando o hino,
Terno e suave,
Do seu amor
Ao Salvador!
Hino de Amor (João de Deus).


Dancei, dancei
Porque meus nervos
Se contorciam
Dentro de mim;
Se distendiam
Para a distância
De eternidade
Em que a perdi.
(Tasso da Silveira).


NOTA: o "poeta" e o "literato" que abrem esta postagem são, evidentemente, personagens caricatos. Devo muito aos amigos e mestres literatos.

Referências:
http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A9trica_(poesia)

PRÖXIMO CAPÍTULO: MÉTRICAS MAIORES

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Para Denise


Scorpio - Josephine Wall - Direitos Reservados
A Graça me ensinou a fazer Hai-kais. E usou como kigo (tema) "Leão na floresta". Acho que ela adivinhou que eu iria precisar, eventualmente, de um "Escorpião no Sol" para homenagear nossa querida Denise, que aniversaria hoje. Sim, é festa no "Tecendo Idéias"...
Nota: a haiga (ilustração) é de Josephine Wall.

Um Hai-kai para Denise

Escorpião no Sol:
Nasce o fio candente
 A tecer idéias.

Fonte: thaisehelena.blogspot.com
E a Lu Cavichioli me ensinou a compor Indrisos. Com uma mestra tão poética e competente, seria vergonhoso se eu não produzisse alguma coisa que prestasse. Então, lembrei-me dos versinhos que fiz no nosso primeiro contato (O Silêncio de Denise). E taí um Indriso pra você:

Um Indriso para Denise

As irmãs de Antares
Tecem tramas em suas pequenas mãos
Donde nasce um lindo manto;

Pressenti, no silêncio ao meu redor
O forte sentimento da paixão
Entre serenas azaléias;

E eu fiz-te então versos quentes,

Perdido nos eflúvios do amor.

"As nativas de Escorpião têm uma beleza luminosa e sedutora"

Pois misturando a Graça e a Lu - quer dizer, o Hai-kai e o Indriso - e mexendo bem, com o acréscimo de alguns ingredientes, saiu-me um soneto aproveitável. Esse também é pra você, Denise.

Um Soneto para Denise

Tu tecias com o fio das idéias
Lindo manto de silêncio acolhedor,
Quando eu, perdido  entre as azaléias,
Pressenti tua presença ao meu redor.

Fiz-te então um sonetinho inspirado
Na quietude repousante do momento,
Sem cuidar que deste gesto delicado
Nasceria este tão forte sentimento.

Hoje Antares e as irmãs dormem serenas,
Mergulhadas nos eflúvios do Sol quente,
Donde haurem a força de Escorpião;

E em silêncio voltam tuas mãos pequenas
A fiar versos do mesmo amor candente,
A tecer a mesma trama da paixão.

Rodolfo Barcellos

Aproveite bem sua festa, menina... e de mim receba hoje um abraço especialmente carinhoso e um beijo bem ali, embaixo da orelha...
PARABÉNS!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Longe...


     Vez por outra, remexendo nos arcanos da memória, salta-me lá de dentro, como um coelho assustadiço, uma lembrança que empacou no seu caminho para o esquecimento. E desta vez lembrei-me do meu pai, declamando trovas e poemetos para passar o tempo, nas tardes chuvosas dos fins-de-semana, quando faltava eletricidade ou o velho rádio a válvulas falhava na sua obrigação de entreter a família com as "Histórias do Tio Janjão", as aventuras de "Radar, o Homem do Espaço", os episódios de "Jerônimo, o Herói do Sertão" ou os percalços de um detetive cujo nome já me fugiu caminho afora. E um dos nossos poeminhas preferidos - talvez pela atmosfera de suspense que ia num crescendo até o final, era este.
     É claro que já sabíamos o desfecho, mas adorávamos ver o "seu" Eurico, com seus gestos grandiloquentes e sua voz empostada, demorar-se nas pausas finais... só pra terminar num anticlímax que sempre nos arrancava gostosas gargalhadas.


Lá longe...

O sol, no horizonte recostado,
Da sua cama corre a grã cortina;
E a lua, por temer um resfriado,
Envolve-se num manto de neblina.

Uma nuvem, hiperbólica e amável,
Qual fumaça de celeste pito,
Parecia um remendo formidável
Costurado nos calções do infinito!

As nuvens, no espaço já crescendo
Semelhavam magnífico repolho;
E o céu, em trevas se envolvendo,
Não via nada - parecia estar caolho.

E lá longe, muito ao longe, bem ao longe,
Além daquela serra rendilhada...
Eu repito: Lá longe...
...muito ao longe...
...bem ao longe...
...
...mais ao longe...
...
...não se vê nada!

sábado, 22 de outubro de 2011

Público-alvo

O poeta é um fingidor;
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
Fernando Pessoa


Existe um nexo entre o que se sente, o que se escreve e o que se acredita. Nem sempre é um liame de causa e efeito; na maioria das vezes, é uma relação de interdependência.
Feliz aquele que escreve o que sente e sente o que acredita, pois só assim poderá acreditar no que escreve. E esse círculo virtuoso é a própria alma da palavra escrita!
Escritores - e, principalmente, poetas, cronistas, contistas e ficcionistas em geral - lançam mão, naturalmente, de metáforas e alegorias - figuras de pensamento que se afastam da realidade do nosso prosaico dia-a-dia. O escritor de ficção não mente, pois tem a intenção declarada de entreter e espicaçar a imaginação do leitor; mas é fácil extrapolar aí os recursos estilísticos e cair no exagero que causará um mal-entendido ou uma interpretação equivocada por parte do leitor ou do ouvinte incauto. Lembram-se da famosa transmissão radiofônica de "Guerra dos Mundos", de H. G. Wells? Boa parte da população da Costa Leste dos Estados Unidos acreditou que a invasão alienígena era real e houve casos de pânico coletivo.
Um poema de protesto, como "O Navio Negreiro", sempre parecerá mais próximo da realidade que um poema de amor, sejam do mesmo poeta ou de poetas diferentes. Isso porque um visa obter uma reação ativa num público engajado e o outro destina-se à introspecção da alma. O primeiro é para ser declamado em palanques ou em praça pública, e o segundo será lido num ambiente aconchegante e silencioso, perante um público pequeno - que pode perfeitamente incluir alguns dos que estavam naquele comício, aos gritos de "apoiado!"
Prefiro, sempre que posso, usar palavras e expressões simples nos meus rabiscos. Sim, já houve época em que meu escrever era mais rebuscado, mais petulante, mais exibicionista, mais pernóstico, mais pedante. Serviu para engordar-me o ego e emagrecer a lista de meus leitores. E também para enriquecer o vocabulário de meus textos e empobrecer-lhes a inteligibilidade com seu exibicionismo preciosista (olha aí meu velho pecado! mas vocês entenderam, não é? não? deixa pra lá...).
É importante manter o foco no chamado "público-alvo". Escrever uma dissertação acadêmica não é escrever uma crônica. Um artigo informativo não é uma coluna social. Um conto não é um poema. Um romance não é uma fábula. O manual de seu micro-ondas não é uma cartilha de alfabetização. E se eu quero escrever para crianças usarei um vocabulário que elas entendam e evitarei frases longas.
Como "público-alvo" entenda-se também os apreciadores de estilos diversos, sejam mais exóticos ou mais tradicionais, e tantos outros que buscam exprimir, num dialeto próprio, suas verdades peculiares. Mas "público-alvo" é uma expressão enganadora. Cada um de nós faz parte de diferentes "públicos-alvos", em diferentes momentos...
Talvez o maior desafio para um escritor multidisciplinar seja manter uma disciplina de estilo adequada a cada caso, sem cair na mesmice ou ferir aquele círculo virtuoso que alimenta a autenticidade e a fé do texto escrito. Porque a "verdade" em um poema usa  roupas que não caem bem num artigo científico, embora possam vestir com bom gosto uma crônica.
Aliás, sinto-me agora como um peixe fora d'água. Cá estou eu, um pedreiro esforçado - talvez um bom mestre-de-obras - discorrendo sobre a arquitetura de palácios e catedrais. Que me perdoem os literatos - os arquitetos que me ensinaram a bem misturar a argamassa das palavras. E estas que aqui exponho têm como público-alvo os aprendizes de pedreiro, e não os engenheiros experientes.
Quanto a textos de propaganda, escritos de fundamentalistas e fanáticos religiosos, discursos de políticos e algumas obras de "ghost writers"... desculpem. Talvez em outra ocasião. Os círculos deles costumam ser de outro tipo. Não cabem aqui.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Anjos e Demônios



     Ontem eu vi a face do Demônio. Ontem, ele deixou-se filmar, orgulhoso de sua vitória, e tripudiou sobre minha fé.
     Vi quando ele cegou os olhos e as mentes de dezoito seres humanos, escravizando-os à sua maldade e obrigando-os a torturarem quase até à morte, ou abandonar ao sofrimento, uma criança de dois anos - um pequeno anjo indefeso. E ele ria...
     Ah, pequena Yue... estavam distraídos teus pais? Talvez. Mas, por certo, Deus estava desatento. E quando chegares lá, Ele, com lágrimas nos olhos, te pedirá perdão. E tu, anjo, tu O perdoarás, e Ele te dará um lugar de honra, à Sua mão direita, onde estarás feliz pela eternidade, na companhia de tantos outros anjos torturados e mortos pelo mesmo Demônio na vida anterior. E lá, Yue, lá estarás segura, pois lá não alcança o poder maligno desse Demônio chamado Indiferença.


     Nota: a Milene chamou minha atenção para esse fato revoltante, e pediu-me que fizesse "um poema para a menininha". Mas não consegui. Tudo o que pude fazer foi expressar minha tristeza por fazer parte desta humanidade amaldiçoada.
     Hesitei muito em inserir aqui este vídeo chocante. Não sei como isto poderá contribuir para acordarmos de nossa indiferença. Sim, pois a presa do Demônio não foi aquele anjo: foram dezoito seres ditos humanos. E nós também não somos vítimas, tantas vezes, deste mesmo Demônio?



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ninar e Acordar Palavras

     Paolo Diacono foi um monge lombardo (aprox. 720 - 799), que entre inúmeras outras obras escreveu um famoso hino a São João, em latim. Esse hino deu origem aos nomes das notas musicais:


Ut queant laxis
Resonare fibris
Mira gestorum
Famuli tuorum
Solve polluti
Labii reatum
Sancte Iohannes


     A letra significa algo como "Para que os teus servos possam cantar as maravilhas dos teus atos admiráveis, absolve as faltas dos seus lábios impuros, ó São João".
     Mais tarde o Ut foi substituído por, por ser uma sílaba mais "cantável" nos exercícios de solfejo; e a música chegou até nossos dias em inúmeras versões. "Minha Canção" (do musical "Os Saltimbancos", de Chico Buarque) é uma delas:
     Escolhi este vídeo, entre tantos outros, por causa da parte puramente instrumental (flautas doces), que pode ser usada como "karaokê" para acompanhar a letra da "Canção para Ninar e Acordar Palavras" - além, é claro, de divulgar o "Coral da Pediatria Brasileira".
     Fiz a letra pensando nas turmas de Alfabetização, mas é claro que ela pode ser adaptada de várias maneiras para outros grupos.


Canção para Ninar e Acordar Palavras

(Ninar: escala ascendente)
Dor de barriga
Remédio amargo
Micose coça
Faca corta a mão
Solidão é triste
Lágrima de choro
Silêncio é chato
Dói no coração

(Acordar: escala descendente)
Doce de goiaba
Sino de pipoqueiro
Lambida na colher
"Solvete" é tão "bão"
Fatia de bolo
Milho de pipoca
Refresco de uva
Doce de mamão

"Solvete é tudibão"...
     Essa letra pode, sim, ser melhorada. Não consegui lembrar-me de qualquer guloseima que começasse com "Si". Mas acho que não estarei "desalfabetizando" ninguém com meu "Solvete é tão bão"... o Maurício de Souza, o Cebolinha e o Chico Bento que o digam.
     Quanto a detalhes de figurino, cenário, som, iluminação etc, melhor deixar com quem entende do riscado. Dramaturgia - mesmo no nível mais simples e despojado - não é comigo. Mas gostei de imaginar montagens diversas, desde uma simples cantoria em sala de aula até uma estréia de gala no Municipal...
     Ah, e quem tiver mais idéias sobre palavras "adormecíveis" ou "acordáveis" que comecem com nomes de notas musicais, mande para o canteiro de obras da Graça - o "Lexicoterapia", no "Botões de Madrepérola" - ou faça um comentário aqui. Eu e ela agradecemos.